A oração e o jejum pela pátria – Dr. Caramuru Afonso

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INTRODUÇÃO

- O discípulo de Jesus é, a um só tempo, cidadão dos céus e cidadão da Terra. Por ter sido perdoado por Jesus e passado a ser templo do Espírito Santo, tendo comunhão com o Pai, é concidadão dos santos e da família de Deus (Ef.2:19).

- Entretanto, quando é salvo, embora esteja a aguardar a cidade que está nos céus (Fp.3:20), ainda está no mundo (Jo.17:11), onde devem contribuir para o progresso e o bem-estar da sociedade, como cidadãos irrepreensíveis e inculpáveis no meio de uma geração corrompida  e perversa (Fp.2:15).

I – O QUE É PÁTRIA E A DUPLA CIDADANIA DO CRISTÃO

 - ‘Pátria”, diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, é “país em que se nasce e ao qual se pertence como cidadão; terra, torrão natal”, “parte do país em que alguém nasceu; terra natal”. Vem da palavra latina “patria”,  cujo significado é “o país natal, o solo natal; pátria adotiva; república, nação, Estado; região, país”. Temos, pois, que pátria é o “lugar onde nascemos” ou “o lugar onde escolhemos habitar”.

- Na Versão Almeida Revista e Corrigida, a palavra “pátria” é encontrada apenas em o Novo Testamento, em seis oportunidades (Mt.13:54,57; Lc.4:23,24; Jo.4:44; Hb.11:14), sendo que, em cinco destas oportunidades, a palavra sempre se referiu a Nazaré, terra onde Jesus foi criado e onde as pessoas supunham ter Ele nascido, tanto que era chamado de “Nazareno”. Somente em Hb.11:14, quando o escritor se refere à palavra “pátria”, está a dizer a respeito do lugar para o qual os heróis da fé almejavam ir, para viverem eternamente com Aquele em quem criam. Em todas as ocorrências, a palavra grega é “patris” (??????), palavra que é praticamente idêntica à sua correspondente latina “patria”, de onde vem a palavra em português e que tem o mesmo significado de “terra natal”, “lugar onde se nasce ou que se adotou como local de habitação”.

- A idéia de “pátria” traz em si a idéia de origem comum, pois é nítido que “pátria” vem de “pai”, dando, pois, a conotação de que a “pátria” é o lugar de nossas raízes, de nossas origens, de nossos antepassados. Não é por outro motivo, aliás, que o grande jurista e estadista brasileiro Ruy Barbosa, sem dúvida o que mais dissertou e defendeu a Pátria em nosso Brasil, ter conceituado a Pátria como “a família amplificada”.

- Assim, a idéia de “pátria” tem a ver diretamente com a origem, com o nascimento das pessoas e, portanto, com a própria idéia de “nação”, palavra que também tem esta conotação, visto que vem de “nascer”. Podemos, então, afirmar que a “pátria” é o lugar onde alguém nasce, o local onde se situa uma “nação”.

- Por isso, quando falamos em “pátria”, não podemos nos esquecer o que a Bíblia nos ensina a respeito da origem das várias nações que existem sobre a Terra. Tendo todos os homens vindo de um só (At.17:26), como explicarmos a diversidade de nações e, conseqüentemente, de “pátrias” no mundo? A resposta encontra-se no capítulo 11 do livro do Gênesis, quando a Palavra de Deus nos mostra que, após o dilúvio, a humanidade, que voltou a povoar a terra a partir de uma só família, a família de Noé, escolheu como “Pátria” a região de Babel, entre os rios Tigre e Eufrates, a Mesopotâmia (região que é hoje parte do Iraque) e lá, entretanto, como um só homem se rebelaram contra o Senhor que, para não destruí-los, acabou por espalhá-los por todo o planeta, confundindo a língua falada pelo povo e, assim, criando as diversas nações do planeta. Era o surgimento dos “gentios”, ou seja, das nações, que haveriam de existir, a partir de então, até o final da história da humanidade.

- No Seu plano para a salvação da humanidade, ante esta rejeição promovida por aquela comunidade única que se tornou as várias nações do planeta, o Senhor resolveu formar uma nação peculiar, uma nação especial, que pudesse servir de intermediária entre Deus e as demais gentes, um reino santo, que, separado do pecado e em comunhão com o Senhor, pudesse trazer a salvação à humanidade, já que, em seu seio, nasceria a semente da mulher prometida ainda no Éden para a redenção dos seres humanos. Por isso, Deus chamou Abrão para dele fazer uma nova nação, já que as existentes haviam fracassado no teste da fidelidade e obediência ao Senhor.

- Ao chamar Abrão, o Senhor tinha plena consciência de que, como ser humano, Abrão pertencia a uma nação, tinha uma Pátria, pátria esta que era Ur dos caldeus (Gn.15:7), então uma rica e próspera cidade na Mesopotâmia. Tanto assim é que mandou que Abrão saísse da sua casa, da sua parentela e da sua terra, ou seja, da sua Pátria, para uma terra que haveria de lhe mostrar. O convite de Deus, portanto, era para que Abrão deixasse a sua Pátria e fosse para uma nova Pátria, que seria mostrada por Deus no momento oportuno (Gn.12:1,2).

- Este chamado de Deus para que Abrão abrisse mão de sua Pátria e fosse o pai de uma nova nação, se estabelecesse em uma nova Pátria não seria uma prerrogativa exclusiva deste patriarca (aliás, a palavra grega “patriarca” significa “governante de uma família grande”, ou seja, na expressão de Ruy Barbosa, “governante de uma pátria”), mas algo que caracterizaria todos os patriarcas de Israel, ou seja, além de Abraão, Isaque e Jacó, que, confessando-se peregrinos em terra estranha, sabiam que o Senhor daria a Terra Prometida a seus descendentes e viveram nesta fé.

- Temos, então, que, num primeiro instante, Deus exigiu de Seus servos que abandonassem a “pátria anterior”, ou seja, Ur dos caldeus, para se dedicarem à formação de uma nova nação, que servisse ao Senhor com exclusividade, passando a viver no lugar escolhido por Deus para eles, qual seja, Canaã. Por isso, José, pouco antes de morrer, fez questão de fazer com que o povo de Israel, já então no Egito, jurasse que levaria os seus ossos para a Terra Prometida, pois era convicto de que fora um instrumento divino para a realização da promessa de uma nova Pátria (Gn.50:24,25; Hb.11:22).

- Ao libertar o povo do Egito, contudo, o Senhor fez Israel saber que Seu destino era ser uma nação sacerdotal, uma propriedade peculiar dentre os povos (Ex.19:5,6) e que teriam como herança uma terra que manava leite e mel, mas este lugar somente seria por eles ocupado se eles fossem obedientes e fiéis ao Senhor. Mais importante do que ter a Pátria, era ter um relacionamento de obediência e fidelidade a Deus (Dt.4:1-40). Por isso, caso houvesse infidelidade resistente ao Senhor, haveria a perda da própria Pátria (Dt.28:63,64), sem que tivesse sequer lugar de repouso na Pátria alheia (Dt.28:65).

- Por isso, na época dos profetas, o Senhor começou a mostrar a Israel que haveria de chamar outras nações para que O servissem (Is.2:2,4; 49:7; 52:10; 60:3; 62:2; 66:18;  Jr.3:17; Mq.4:2; Zc.2:11) e que celebraria um novo concerto, um novo pacto, em que não mais circunscreveria o Seu relacionamento com o homem a apenas uma nação, mas que passaria a escrever a Sua lei nos corações dos homens (Jr.31:31-36), escolhendo um outro povo (Os.1:9,10; Rm.9:25).

- Mostra, assim, claramente que, com a vinda de Jesus, os que aceitassem servir ao Senhor teriam uma dupla pátria: passariam a pertencer ao povo de Deus, um reino que não é deste mundo (Jo.18:36), mas que estaria entre os discípulos (Lc.17:21).

- Ao trazer o reino de Deus a este mundo, o Senhor Jesus não destruiu as nações que haviam sido instituídas pelo próprio Deus quando do juízo de Babel, nações que se multiplicaram daí para frente, acrescidas ainda de Israel, formada pela vontade soberana do Senhor, de onde veio o próprio Jesus, que fez questão de ressaltar para a mulher samaritana de que a salvação vinha, sim, da nação judaica (Jo.4:22), como, aliás, havia sido profetizado seja por Moisés (Dt.18:15), seja por Natã (II Sm.7:10-16).

- Ao aceitarmos a Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador de nossas vidas, nascemos de novo, passamos a ver o reino de Deus (Jo.3:3) e, nascendo da água e do Espírito, entramos no reino de Deus (Jo.3:5), um nascimento espiritual, que nada tem que ver com a carne (Jo.3:6), vindo a constituir um novo povo, a Igreja, que, pelo sangue de Cristo, chega perto de Deus (Ef.2:13-18; I Pe.2:9,10). Em virtude disso, passamos a não ser mais estranhos para com Deus e nos tornamos concidadãos dos céus e da família de Deus (Ef.2:19).

- Este novo nascimento se dá em um lugar, a saber, os lugares celestiais em Cristo (Ef.1:3), de modo que passamos a ser templo do Espírito Santo (I Co.6:19), morada de Deus no Espírito (Ef.2:22), razão pela qual podemos refletir a glória de Deus para o mundo perdido (Mt.5:16; II Co.3:18). Esta comunhão que temos com o Senhor faz-nos ter como alvo e objetivo de nossas vidas chegarmos até a cidade dos céus (Fp.3:20,21), pois aqui não é o nosso descanso, já que vivemos em meio a uma geração corrompida e perversa (Mq.2:10; Fp.2:15). Em virtude do novo nascimento, portanto, ganhamos uma “nova Pátria”, que tanto desejamos, uma pátria melhor, a celestial (Hb.11:16).

- Entretanto, apesar de passarmos a pertencer a uma nova pátria, a celestial, continuamos neste mundo, até porque um de nossos deveres como integrantes desta nova pátria é “anunciar as virtudes dAquele que nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz”. Ganhamos uma nova pátria, mas não perdemos a pátria terrena que tínhamos quando aceitamos a Cristo. Continuamos na terra, continuamos no mundo, agora como “sal da terra” e “luz do mundo”.

- Assim como os cativos de Judá que, deportados de sua pátria, passaram a viver em “terra estranha” (Sl.137:4), almejando voltar para a Terra Prometida, também os salvos, querendo ir para a cidade que está no céu, devem ainda viver neste mundo, nesta terra. A exemplo dos cativos de Judá, devem, nesta terra, procurar pelo seu bem-estar, ter um “modus vivendi” que dignifique o nome do Senhor e que contribua para o progresso e o desenvolvimento desta terra, que, no caso dos salvos, é ainda a sua “pátria terrena”. Embora a “pátria celestial” seja “melhor”, isto não significa, em absoluto, que devamos repudiar a nossa pátria atual, que não pode ser ruim, mas que temos de lutar para que seja “boa”, embora saibamos que a celestial sempre lhe será superior.

- Foi, precisamente, isto que aconselhou o profeta Jeremias aos cativos de Judá, que pensavam que retornariam brevemente para sua terra. Naquela ocasião, disse o profeta aos judeus que edificassem casas e as habitassem, que formassem famílias e que procurassem a paz da cidade, porque, na paz dela, teriam paz (Jr.29:4-7). O cativeiro da Babilônia tipifica, de certo modo, a peregrinação da Igreja por este mundo, vivendo em meio a um sistema pecaminoso, aguardando sua ida à sua pátria celeste, mas que, enquanto não chega este tempo, determinado por Deus, deve promover o bem-estar da sua “pátria terrena”.

- O salvo é, portanto, portador de uma dupla cidadania. É cidadão dos céus, porque teve suas vestes lavadas no sangue do Cordeiro, creu em Jesus e recebeu o poder de ser feito filho de Deus (Jo.1:12), podendo, por isso, entrar na cidade santa pelas portas (Ap.22:14). No entanto, prossegue sendo um cidadão do lugar onde biologicamente nasceu ou onde resolveu estar por sua opção, devendo, neste lugar terreno que escolheu viver, ser “luz” e “sal”, ser um elemento de edificação e de promoção da paz, fazendo com que este lugar seja de paz, de realização da vontade de Deus, de glorificação do nome do Senhor.

- É importante observar que Davi, ao identificar quem seria o “habitante do tabernáculo do Senhor”, o “morador do monte santo de Deus”, ou seja, quem seria o “cidadão dos céus”, na expressão com que se intitulou o Salmo 15, as características elencadas, sem exceção, dizem respeito não ao relacionamento entre este “cidadão dos céus” e o Senhor, mas, surpreendentemente, descobre-se quem é o “cidadão dos céus” com gestos e atos do “cidadão da terra”. Assim, é “habitante do tabernáculo do Senhor” o que anda em sinceridade, pratica a justiça, fala verazmente, não difama com a sua língua, não faz mal ao próximo, não aceita nenhuma afronta contra o próximo, despreza o réprobo aos seus olhos, honra os que temem ao Senhor, não muda mesmo que jure com dano seu, não empresta o seu dinheiro com usura nem recebe peitas contra o inocente. A “cidadania do céu” é provada pela “cidadania da terra” e, portanto, vemos que um verdadeiro salvo jamais será um mau cidadão, mas, como o seu Senhor, alguém que as autoridades, mesmo omissas e ímpias, não tenham o que dizer senão: “não acho culpa alguma neste homem” (Lc.23:4 “in fine”).

- Mas o que vem a ser “cidadania”? “Cidadania” é a “condição de pessoa que, como membro de um Estado, se acha no gozo de direitos que lhe permitem participar da vida política”, ou seja, é a condição de quem pode participar da vida de um determinado povo, que tem direito de voz e de voto. O salvo é alguém que, tanto em relação à sua pátria celeste, quanto à sua pátria terrena, tem de participar, tem de demonstrar o seu amor para com Deus, a sua condição de filho de Deus.

II – O EXERCÍCIO DA CIDADANIA TERRENA

- Nossa lição diz respeito ao exercício da cidadania terrena do salvo, ou seja, de como, na qualidade de discípulos de Jesus, devemos ser cidadãos na pátria terrena, enquanto não somos levados para a pátria melhor, a celestial. O exercício desta cidadania terrena, como vimos ao mencionar o Salmo 15, é condição “sine qua non” para que possamos entrar na cidade celeste pelas portas.

- Quando vemos o nosso exemplo, que é o Senhor Jesus(I Pe.2:21), vemos, claramente, que, quando esteve sobre a Terra, exerceu plenamente a sua qualidade de cidadão, seja como judeu, seja como súdito do Império Romano, que, naquela época, dominava a Judéia. Jesus cumpriu integralmente suas obrigações, sejam as estatuídas pela lei judaica, sejam, mesmo, as instituídas pelo governo romano.

- Jesus, ao contrário do que defendem alguns “teólogos revolucionários” dos nossos dias, não Se comportou como um rebelde ou um líder político, tendo sido este, aliás, um dos principais motivos para a Sua rejeição por parte de Israel. Por isso, por volta do ano 130, muitos cerrariam fileiras em torno de Bar-Kochba, quando este, dizendo-se o Messias, lideraria uma revolta armada contra Roma e que selaria a expulsão dos judeus da Palestina.

- Assim, em primeiro lugar, vemos que o exercício da cidadania terrena impõe, ao salvo, o reconhecimento do governo e de sua autoridade. As autoridades civis são constituídas por Deus (Rm.13:1) e resistir às autoridades é resistir ao próprio Deus (Rm.13:2). O salvo, portanto, deve ser alguém que se comporte como um observador da legislação, como alguém que “anda na lei”, que busca cumprir seus deveres e que jamais promove a desobediência generalizada, o ataque ou a rebelião às autoridades governamentais.

- Neste reconhecimento das autoridades, não se encontra apenas a submissão e obediência, mas, também, o dever de intercessão por elas. O apóstolo Paulo, ao escrever a sua primeira carta a Timóteo, mostrou que é dever da Igreja fazer deprecações, orações, intercessões e ações de graças pelos governantes, pois só assim se terá uma vida quieta e sossegada, com toda a piedade e honestidade e que isto é bom e agradável diante de Deus (I Tm.2:1-3).

- O título da lição refere-se, precisamente, a este dever que se impôs à Igreja, qual seja, o de pedir, orar, interceder e agradecer a Deus pelos governantes. A oração de um justo pode muito em seus efeitos (Tg.5:16), imaginemos a oração de todos os justos de um determinado lugar!

- Como estudamos na lição referente à oração, a única oração aceita por Deus como algo que Lhe é agradável é a oração da Igreja, a oração dos salvos, que são os únicos que se encontram santificados. No entanto, o povo de Deus tem se omitido, não tem pedido, intercedido, orado nem agradecido pelas autoridades constituídas, pelas pessoas eminentes de nossa Pátria e, por causa disso, não temos uma vida quieta e sossegada, em toda piedade e honestidade.

- Muito se discute sobre o estado de falência moral em que se encontra o Brasil, palco de sucessivos escândalos, cada vez maiores e mais generalizados, que causam uma maior insensibilidade ética não só nas camadas dirigentes, mas entre a população. Vive-se um período extremamente perigoso, em que o exercício despudorado do poder está a comprometer valores fundamentais de nossa Pátria, inclusive as liberdades públicas, entre as quais a liberdade de culto e de crença, que, por bênção divina, tem sido no Brasil um oásis entre as nações do planeta. Mas qual tem sido a reação da Igreja? Nenhuma, porque simplesmente não se ora pela Pátria, não se cumpre com o dever mencionado pelo apóstolo a Timóteo.

- Não há como termos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade, se não se pedir, orar, interceder e agradecer a Deus pelos nossos governantes, pelos homens eminentes deste país. Ruy Barbosa já ensinava que “a Pátria é a família amplificada. E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício.” Se estão a faltar os elementos orgânicos da Pátria, isto se deve, em primeiro lugar, à omissão da Igreja em orar por ela.

- Para que tenhamos, em nossa pátria terrena, a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença e o sacrifício, torna-se indispensável que peçamos a Deus que nos dê homens eminentes que primem por estes valores e princípios. Devemos pedir ao Senhor que não permita que pessoas desqualificadas do ponto-de-vista moral venham a ser guindadas a postos de mando. É evidente que, no momento das eleições, devemos fazer a nossa parte, não votando em candidatos comprometidos com programas e interesses contrários à Palavra de Deus e que comprometam a existência de tais elementos na condução de nossa Pátria, mas, além de votar conscientemente, faz-se necessário que oremos a Deus, pois Ele pode, sim, interferir nos destinos do país.

- É, aliás, neste ponto que tem grande importância a realização de jejuns coletivos em prol da Pátria, prática, aliás, que era corriqueira em Israel quando os reis eram fiéis ao Senhor, como se vê, por exemplo, no reinado de Josafá (II Cr.20:3,15-18). Como vimos no apêndice nº 1 deste trimestre, um dos objetivos do jejum é o de pedir orientação, direção ao Senhor na tomada de decisões, o de requerer a Sua intervenção para a solução de problemas e crises que se apresentam diante do país. Através dos jejuns, teremos a resposta dos céus e poderemos saber como devem ser resolvidos os problemas nacionais, sejam elas políticos, econômico-financeiros e sociais. Deus continua respondendo àqueles que Lhe clamam, falando coisas firmes que não sabemos (Jr.33:3). Cabe à Igreja, portanto, buscar a presença do Senhor e, como povo de Deus, trazer as respostas divinas ao conhecimento das autoridades constituídas ou, mesmo, iniciar a ação que trará a solução divina, como faziam os profetas em relação às autoridades de Israel.

- Muitos crentes têm se acomodado quanto a este ponto, dizendo que as profecias bíblicas precisam ser cumpridas e que, por isso, não adianta orarmos porque o Anticristo vai subir ao poder, congregará em torno de si as nações e a tendência, portanto, é de as coisas só piorarem, de a Igreja sofrer cada vez mais perseguição e de o pecado se multiplicar. Concordamos somente em parte com este pensamento.

- É inevitável o cumprimento das profecias bíblicas, mas isto não significa, em absoluto, afirmar que a Igreja não deve orar e que sua oração não produzirá um obstáculo, não ao cumprimento das profecias, mas, sim, da operação do erro em nossa Pátria. Movimentos localizados em todo o mundo, de oração pela Pátria, feitos por servos do Senhor de várias denominações, têm obtido grandes vitórias e modificado radicalmente a realidade de seus países, cidades e regiões, sem que isto represente o descumprimento da Palavra do Senhor. O fato de que o pecado se multiplicará não significa que Cáli, na Colômbia, devesse ser a sede de um dos mais temíveis e violentos cartéis do narcotráfico, nem tampouco que as Ilhas Fiji fossem um país miserável, destinado a se tornar inabitável em poucos anos. Uma coisa não exclui a outra. Os crentes de Cáli como os de Ilhas Fiji buscaram ao Senhor e, em alguns anos, tanto o cartel de Cáli foi totalmente destruído e a cidade deixou de ser o antro de violência que era, como as Ilhas Fiji são hoje um país próspero e milagrosamente restaurado em seus recursos naturais. A oração de um justo pode muito em seus efeitos e de uma Igreja pode ainda mais. Se a Bíblia nos manda orar para termos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade, por que nos omitirmos? Não cremos mais nas Escrituras?

- Devemos ter fé em Deus, não nos políticos ou quem esteja à frente da Pátria. A Bíblia nos registra muitos episódios em que o Senhor interferiu para que este ou aquele governante tomasse uma atitude que beneficiasse o povo de Deus. Quando Hamã governava com todo o apoio de Assuero, Deus fez com que o rei perdesse o sono para que viesse a ter conhecimento do benefício que Mardoqueu lhe fizera e pelo qual nada recebera em recompensa. Precisamos orar e interceder em favor dos eminentes, para que o Senhor possa agir conforme o desejo de nosso coração, para que suas ações sejam tomadas de modo a trazer quietude, sossego e a prevalência da virtude nas relações sociais. Num ambiente desta natureza, o povo de Deus certamente viverá melhor e terá melhores condições de servir ao Senhor de pregar o Evangelho.

- Mas, como cidadão, vemos que Jesus não Se isolou da sociedade, como fizeram os essênios, mostrando que não é o sectarismo a postura que se deve adotar no relacionamento com as autoridades constituídas. Reconhecendo que elas são ministros de Deus (Rm.13:1-7), Jesus jamais desafiou o domínio romano, estabelecendo, porém, que há limites para a autoridade civil que, por exemplo, não pode invadir o terreno reservado para a Palavra de Deus (Mt.22:21; Mc.12:17; Lc.20:25).

- O exercício da cidadania terrena não nos leva apenas a orar a Deus, mas, também, a agir, a tomar atitudes no dia-a-dia de nossa vida nesta pátria terrena. É indispensável que oremos pela Pátria, que busquemos a face do Senhor para que sejam tomadas decisões de acordo com a vontade do Senhor, que os governantes tenham sabedoria na tomada de decisões, que triunfem as virtudes no relacionamento entre os poderosos, que advenha o bem-estar da coletividade. No entanto, embora sejam louváveis iniciativas de vigílias em prol do país ou de dificuldades tópicas que venham a ocorrer, não podemos ficar apenas na intercessão, deprecação, oração e ações de graças.

- Devemos, também, ir ao encontro da sociedade, participar ativamente da vida social do país, levando aos concidadãos a Palavra de Deus, proclamando a verdade bíblica a respeito dos temas, questões e discussões que se façam no meio da população. A participação política do povo de Deus é indispensável, pois só a Igreja foi comissionada por Deus para ser Sua porta-voz entre as nações.

- A exemplo de João Batista, o último profeta da antiga aliança, que levantou a sua voz para denunciar o pecado e para apontar o Messias, a Igreja deve, também, denunciar o pecado e apontar o Cristo como a solução dos problemas da vida, a Palavra de Deus como única regra de fé e prática que traz a felicidade e o bem-estar do país.

- Participação política para a Igreja é isto: denunciar o pecado e mostrar à sociedade, notadamente aos governantes, como devem ser decididas as questões e os debates que surgem à luz da Palavra de Deus. Assim, seja nas casas legislativas, seja junto aos ocupantes do Poder Executivo, seja, mesmo, nas demandas que se apresentarem ao Poder Judiciário, a Igreja deve apresentar o que ensina a Bíblia Sagrada a respeito daquele assunto e como, então, devem ser tomadas as decisões para que se tenha uma nação feliz, pois bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor (Sl.33:12), bem-aventurado o povo cujo Deus é o Senhor (Sl.144:15).

- Esta, aliás, é a única participação política permitida à Igreja enquanto instituição, segundo os parâmetros bíblicos. A Igreja existe para anunciar o Evangelho, para proclamar a verdade e, como tal, não pode, em absoluto, se omitir quando medidas, atos e decisões forem tomadas em desacordo com a sã doutrina. Temos visto com muita tristeza a omissão continuada das convenções, denominações e ministérios contra as cada vez mais intensas investidas dos inimigos do Evangelho em nosso país, como exemplos são a aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias, a apresentação de projetos para criminalizar a homofobia, para deformar o conceito de família e, até mesmo, a apresentação de uma demanda para legalizar a união homossexual no Brasil, perante o Supremo Tribunal Federal, medidas estas que, quando muito, apresentam uma tardia manifestação dos órgãos de cúpula das igrejas evangélicas, sem que haja uma mobilização permanente e preventiva em defesa da sã doutrina. Pasmem todos, mas, se não fosse a Igreja Católica Apostólica Romana, certamente, no Brasil, hoje já teríamos aprovado o aborto, a união homossexual e não estaria, ainda, sob discussão, a pesquisa com células-tronco embrionárias.

- Jesus não Se isolou da sociedade, ia ao encontro dos necessitados, dos doentes, dos marginalizados e lhes perguntava o que lhes angustiava, trazendo, muitas vezes, a solução para os seus problemas. A Igreja, também, deve ter ativa participação na toma das decisões, aproveitando-se da democracia que desfrutamos, para que a Palavra de Deus seja pregada e o Evangelho, anunciado, quando surgirem os atos ou os projetos que contrariam a sã doutrina.

- Neste ponto, aliás, devemos aqui nos socorrer do pensamento do filósofo cristão holandês Herman Dooyeweerd (1894-1977), segundo a qual, na sociedade, cada instituição tem uma área própria de atuação, que não pode ser invadida por nenhuma outra. Assim, quando Jesus afirmou que “devemos dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt.22:21; Mc.12:17; Lc.20:25), deixou bem claro que cada instituição tem sua própria área, seu próprio espaço na sociedade, não podendo um invadir o outro. “…A negociação política, a legislação e o judiciário devem respeitar a autonomia da esfera acadêmico-científica, dos cultos religiosos (enquanto cultos), do setor econômico, da arte, da família e assim por diante, garantindo a cada esfera a liberdade para florescer a partir de seu próprio princípio. Não se pode admitir, portanto, um Estado que tente estabelecer leis para a vida familiar que desconsiderem os aspectos normativos da família…” (CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de. Sociedade, justiça e política na filosofia de cosmovisão cristã: uma introdução ao pensamento social de Herman Dooyeweerd. In: LEITE, Cláudio Antonio Cardoso et alii. Cosmovisão cristã e transformação: espiritualidade, razão e ordem social. P.210).

- O salvo deve, além de orar, agir, denunciando, com base nas Escrituras, tudo o que for discutido, debatido, proposto e apresentado como decisão mas que contraria a sã doutrina, que signifique o estímulo e incentivo ao pecado, que traz maldição para o país. Devemos nos lembrar que, se o país é mal dirigido, se toma decisões contrárias à vontade de Deus, todos sofrerão, pois Deus é justo e não Se deixa escarnecer e tudo quanto se semear, será colhido (Gl.6:7,8). Os justos, ademais, também sofrerão, pois quando o ímpio domina, o povo, como um todo, suspira (Pv.29:2) e os verdadeiros homens se escondem (Pv.28:12,28).

- Participar politicamente, denunciar o pecado não pode ser confundido com rebelião ou desobediência civil. Como vimos supra, não é comportamento de um cristão genuíno e verdadeiro o confronto, o uso da violência, o desrespeito e a irreverência, que tanto têm caracterizado o chamado “ativismo político” de que fala nosso comentarista. Entretanto, dentro da lei e da ordem, dentro dos direitos fundamentais da pessoa humana, pode e deve o cristão apresentar suas reivindicações, proclamar o Evangelho e exigir que os governantes observem a Palavra de Deus. Como João Batista, não podemos nos calar ao vermos os “adultérios” e as “ilicitudes” dos governantes, chamando-os, de modo pacífico, ordeiro, mas firme e com autoridade do Espírito Santo, à verdade, mesmo que isto custe a nossa cabeça (Mc.14:4; Mc.6:18). Exemplo de reivindicação bem sucedida e que se pautou pelos parâmetros cristãos temos na luta pela concessão de direitos civis aos negros norte-americanos pelo pastor batista Martin Luther King (1929-1968).

- Quando, porém, nos calamos, estamos a consentir com o que se faz. Vemos que a atitude é errada, mas, ao nos omitirmos, além de não proclamarmos a Palavra de Deus, a verdade, que é nosso dever, que faz parte da “missão profética” da Igreja, deixamos de fazer o bem, permitindo que o mal prevaleça e se consolide. Deixar de fazer o bem é pecar (Tg.4:17) e cometer pecado é indicar que ainda somos servos do pecado (Jo.8:34), que não nascemos de Deus (I Jo.3:9), estando na mesma condenação dos ímpios (Rm.1:32). Pode, por um acaso, ser esta a condição de um cidadão dos céus? Evidentemente que não!

- Participar, porém, não significa, em absoluto, envolver a Igreja em lutas político-partidárias. Dentro da própria concepção de Herman Dooyeweerd, que tem fundamento bíblico, não é tarefa da Igreja a conquista do poder político nem tampouco o controle do Estado. À Igreja cumpre pregar o Evangelho aos perdidos e promover o aperfeiçoamento dos santos. A conquista do poder político e a tomada de decisões concernentes à aplicação da justiça pública é tarefa que o Senhor, ao criar as nações (inclusive Israel), cometeu ao Estado, que é outra esfera autônoma da sociedade.

- Vemos isto claramente quando o Senhor estruturou Israel, quando foram mantidos separados o poder político e o poder religioso, como a indicar que não caberia aos sacerdotes o exercício do poder político, o que ocorreu, na história judaica, precisamente quando o Senhor deixou de levantar profetas, no chamado período intertestamentário, como uma demonstração cabal de que a confusão entre poder político e poder religioso é corrupção do sistema instituído por Deus, pois “não havendo profecia, o povo se corrompe” (Pv.29:18).

- O Senhor Jesus, mesmo, ao ser interpelado pelos discípulos, pouco antes de ascender aos céus, a respeito da restauração do reino a Israel, deixou claro que não caberia à Igreja tal tarefa, mas, sim, a de ser Suas testemunhas até aos confins da terra, devendo, portanto, pregar o Evangelho e confirmar a palavra com sinais e maravilhas, mediante a busca do revestimento de poder (At.1:6-8).

- Deste modo, não é tarefa da Igreja ingressar em campanhas eleitorais ou participar de projetos político-partidários, mas deve, junto aos candidatos, defender a sã doutrina e apresentar aos postulantes quais devem ser os parâmetros agradáveis a Deus em todos os pontos que se discutirem e debaterem. Oportuno, portanto, que órgãos específicos da Igreja orientem os crentes a respeito da postura bíblica em relação aos temas tratados nas campanhas eleitorais e apresentem a conformidade dos programas de governo apresentados com a sã doutrina.

- Não devemos, a propósito, esquecer as palavras de Ruy Barbosa, segundo as quais “…A pátria não é ninguém, são todos; e cada um tem no seio dela o mesmo direito à idéia, à palavra, à associação. A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo: é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade….”. Desta maneira, não podemos expressar amor pela Pátria nem fazer uma justa e legítima intercessão por ela, aliando-se a um grupo, a uma facção, ou, o que é pior, tornando a Igreja um partido político, um núcleo de interesses pessoais ou grupais. A Igreja deve pregar o Evangelho a toda criatura (Mc.16:15), ou seja, deve interceder e orar pela Pátria, que é esta totalidade de que falou a “Águia de Haia”.

- Não há, pois, grupo mais patriota que a comunhão dos salvos, que a “universal assembléia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus” (Cf. Hb.12:23), pois são estes que, por terem acesso aos céus, podem rogar a Deus pelo bem-estar, pela felicidade da Pátria, este conjunto das pessoas, tendo, ademais, a mensagem que poderá efetivamente trazer a bem-aventurança a todos quantos quiserem ouvi-la. Desinteressadamente, pois é portador do amor divino, que é sem interesse (I Co.13:5), os salvos intercedem pelo sucesso, êxito e aperfeiçoamento da Pátria, mostrando, inclusive, qual o caminho que se deve seguir para alcançá-lo, que outro não é senão a observância da Palavra de Deus.

- Eis a razão pela qual devem os salvos, sempre, primar pela defesa do regime democrático, que, como dizia o primeiro-ministro inglês Winston Churchill (1874-1965), “…é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas”.  A democracia é o regime em que se preservam as liberdades fundamentais, em especial, a liberdade de culto e de crença, o que é essencial para que se pregue o Evangelho. A democracia é o regime onde se dá ao homem a dignidade para poder exercer o seu livre-arbítrio, o que está de acordo com o plano divino estabelecido à humanidade, de modo que não há como deixar de se defender tal regime. Deve, pois, a Igreja sempre orar para a preservação da democracia e para seu contínuo aperfeiçoamento, pedindo ao Senhor para que as sempre presentes ideologias autoritárias e totalitárias, sempre opostas à sã doutrina, venham a triunfar nos embates pelo poder.

- Neste ponto, aliás, é indispensável que os salvos orem pelos postulantes, a fim de que o Senhor lhes possa dar sabedoria para bem elaborar seus programas de governo e para que, como homens honestos e fiéis, cumpram os compromissos assumidos. O acompanhamento do cumprimento das “promessas de campanha” é algo que deve, também, ser incentivado e estimulado aos salvos, pois os servos do Senhor têm discernimento espiritual e, portanto, em eventual campanha de reeleição, saberá, se devidamente informado, verificar os frutos produzidos pelos governantes, a fim de observar se merecem, ou não, a confiança a ser neles depositada (Mt.7:16-20).

- Devemos, também, além de orar pelos postulantes e governantes, colocarmo-nos à disposição para colaborarmos com a implementação dos projetos e planos de governo. Não basta pregarmos o Evangelho, orarmos pelos eminentes, mas temos de nos pôr à disposição para que, com atitudes e gestos, tornemos realidade aquilo que foi idealizado. Todo e qualquer programa de governo que não contrarie as Escrituras poderá ser levado a efeito pela Igreja, em colaboração com o Governo, desde que não haja invasão de competências nem tampouco comprometimento das atividades próprias do povo de Deus, que é a pregação do Evangelho e o aperfeiçoamento dos santos. Dizem as Escrituras que não devemos nos cansar de fazer o bem (Gl.6:9; II Ts.3:13) e que, se soubermos fazê-lo e não o fizermos, pecamos (Tg.4:17).

- Não devemos nos esquecer de que são pouquíssimos os que se dispõem a se oferecer para orar juntamente com os governantes, para que o Senhor os possa orientar. Sabemos que Deus tem o controle de todas as coisas, mas insistimos em nos omitir em oferecer aos governantes a oportunidade de buscarem a face do Senhor, de orarem para a solução dos problemas. É com tristeza que vemos os palácios de nosso país serem freqüentados por videntes, médiuns, gurus e de se ter até notícia de cerimônias de magia negra e de outros rituais macabros a pedido de governantes, enquanto que os servos do Senhor se omitem, não oferecendo aos governantes a oportunidade de participar de uma reunião de oração, de uma busca da presença do Senhor. Como queremos ver nosso país abençoado se os nossos eminentes estão a buscar o diabo e não a Deus? Onde estão os nossos líderes para levarem a palavra e terem um momento de oração com os nossos governantes?

-O que se verifica, porém, é que nem mesmo os políticos que são servos de Deus e que assumem cargos públicos são acompanhados pelos salvos em oração, não apenas aquela oração feita nas igrejas locais ou em nossa vida devocional, mas a oração feita com o governante, com o ocupante de um cargo público, em uma reunião cujo objetivo seja o de fortalecer este homem na fé e na defesa dos interesses do Evangelho. É o que o professor de Ética Cristã, Elias Brito Júnior chama de “…acompanhamento pastoral dos políticos. Como todos os cristãos, eles também precisam receber consolo, conforto e exortação da parte de um ministro de Deus. Tenho ouvido parlamentares que dizem nunca ter recebido uma visita de cunho pastoral….” (BRITO JÚNIOR, Elias. Como corromper um político evangélico).

- Efetivamente, não é assim que se mostrará amor pela Pátria. Ruy Barbosa afirmou que “…Os que a servem [a pátria, observação nossa] são os que não invejam, os que não infamam, os que não conspiram, os que não sublevam, os que não delatam, os que não emudecem, os que não se acovardam, mas resistem, mas esforçam, mas pacificam, mas discutem, mas praticam a justiça, a admiração, o entusiasmo. Porque todos os sentimentos grandes são benignos, e residem originariamente no amor….”. Mais uma vez, a “Águia de Haia” mostra que os verdadeiros patriotas só podem ser os discípulos de Jesus, pois só eles são portadores do amor divino, que lhes foi derramado pelo Espírito Santo em seus corações (Rm.5:5)

- A omissão presente na Igreja na atualidade com relação à intercessão pela Pátria, seja em rogos, seja em orações, seja em jejuns, seja em ações e gestos de colaboração com o governo e demais segmentos sociais pelo bem-estar da coletividade, é mais uma demonstração da falta de amor que há no seio dos que cristãos se dizem ser. Os que servem a Pátria, disse Ruy, são os que não emudecem, os que não se acovardam, mas, sim, resistem para que se mantenha a liberdade e se dignifique o homem, para que persistam os elementos orgânicos da família amplificada (a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício).

- Os verdadeiros patriotas são aqueles que, em meio a uma sociedade dividida, em meio ao aumento da violência, da incompreensão e da criminalidade, levando o amor de Jesus Cristo, buscam a pacificação, pois, afinal de contas, são eles os filhos de Deus (Mt.5:9). Esta pacificação, que nada tem que ver com omissão e silêncio, é a discussão, o debate, a denúncia do pecado mediante a pregação e exposição da Palavra, chamando o povo e a sociedade ao arrependimento e à observância das Escrituras.

- Para que, porém, possa a Igreja zelar e interceder pela Pátria, deve, como salienta Ruy, “praticar a justiça, a admiração e o entusiasmo”. Reside aqui o grande obstáculo para que muitos dos que cristãos se dizem ser sejam verdadeiros patriotas. Não são eles “luz do mundo” nem “sal da terra”, não estão a praticar a justiça, mas, bem ao contrário, têm um testemunho que serve de escândalo e não de fator de admiração e entusiasmo por parte dos homens.

- João Batista denunciava o pecado porque era cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe (Lc.1:15) e, portanto, tinha autoridade para levar o povo ao arrependimento e para exercer sua missão profética. Da mesma maneira, para que possa ser denunciadora do pecado e fomentar a transformação da sociedade à luz do Evangelho, a Igreja precisa, igualmente, ser revestida do poder do Espírito Santo, sem o que não poderá testemunhar eficazmente do seu Senhor, não poderá levar o povo a seguir os ditames das Escrituras e, conseqüente, a obter a bem-aventurança destinada à nação cujo Deus é o Senhor.

- Muitos têm preferido, na atualidade, fazer “declarações”, “determinações” de que tal cidade é do Senhor Jesus, tal bairro é do Senhor Jesus, inclusive se “especializando” em “batalhas espirituais” contra “demônios territoriais”, como se isto fosse suficiente para transformar uma vila, uma cidade ou um país. Não é através de “palavras mágicas” ou “práticas ocultistas” que se conseguirá demonstrar amor pela Pátria, que se intercederá pela Pátria.

- O amor pela Pátria, a intercessão por ela se fará única e exclusivamente com o estabelecimento de uma vida de comunhão com Deus, de uma vida de santidade e de revestimento do poder do Espírito Santo. Se não vivermos em santificação, se não nos arrependermos de nossos pecados, de modo algum alcançaremos o sarar de nossa nação.

- O Senhor, ao responder à oração feita por Salomão quando da dedicação do templo, foi bem claro ao mostrar que a bem-aventurança nacional é resultado de humilhação, oração, busca da Sua face e conversão dos maus caminhos por parte do povo de Deus( II Cr.7:14). Sim, queridos e amados irmãos, se os que dizem ser discípulos de Jesus não se humilharem, não orarem, não buscarem a face do Senhor e não se converterem de seus maus caminhos, jamais poderão ter sucesso na oração, jejum e ação em prol de suas pátrias terrenas.

- A apostasia dos nossos dias, a hipocrisia dos que cristãos se dizem ser têm sido um importante fator para a deterioração das condições de vida nas pátrias terrenas, mais um eloqüente sinal da proximidade da vinda do Senhor Jesus e do estabelecimento do regime ditatorial mundial do Anticristo.

- Ruy Barbosa disse, também, que os que servem a Pátria são “…os que não invejam, os que não infamam, os que não conspiram, os que não sublevam, os que não delatam…” Jesus, enquanto súdito do Império Romano, não defendeu o não pagamento dos tributos a Roma, reconhecendo, pois, a legitimidade que tinha o poder romano de cobrar impostos dos povos dominados. Também não se furtou ao pagamento do imposto do Templo, embora soubesse que, como Filho de Deus, não devesse fazê-lo, mas, para que não houvesse escândalo, não só pagou o Seu tributo, como também o de Pedro (Mt.17:24-27).

- Diante das autoridades, quando de Seu julgamento, Jesus, em momento algum, questionou a autoridade daqueles que Lhe julgavam, embora deixasse claro a Pilatos que seu poder era decorrente de constituição divina (Jo.19:11). Ao próprio Pilatos, mostrou que Sua vocação não era política, nem havia vindo para isto em Sua primeira vinda (Jo.18:36).

- Mesmo perseguido impiedosamente por Nero, o apóstolo Pedro fez questão de lembrar os crentes de que deveriam se sujeitar às autoridades superiores (I Pe.2:13-17), mesmo ensinamento dado pelo apóstolo Paulo (Rm.13:1-7). A inveja, a infâmia, a conspiração e a sublevação, ou seja, a rebeldia, a rebelião não são caminhos que devam ser trilhados pelos discípulos do Senhor Jesus, que devem ter um viver honesto entre os gentios.

- Jesus não deixou, porém, de denunciar os abusos feitos em nome da autoridade, sendo exemplo disto o que fez no templo, transformado de casa de oração em verdadeiro mercado, que o Senhor não deixou de designar como “covil de ladrões”  (Mt.21:13; Mc.11:17; Lc.19:56).

- Embora tivesse sido levado a Pilatos como um líder subversivo, a verdade é que Jesus jamais questionou o domínio romano, embora Sua mensagem, pautada na verdade e santidade, fosse uma evidente condenação de toda a corrupção reinante tanto entre as autoridades romanas, como também entre os sacerdotes. Por isso, foi considerado uma ameaça às instituições e, como tal, condenado à morte na cruz (Jo.19:15,16).

- Assim devem agir os discípulos do Senhor. Sem fomentar rebeliões, conspirações, sem demonstrar inveja ou lançar infâmias sobre os governantes, deve sempre falar a verdade e apresentar projetos e sugestões aos governantes que estejam de acordo com as Escrituras. Não podem calar-se diante dos cada vez mais freqüentes ataques à sã doutrina, movimentando-se, dentro da lei e da ordem, para que decisões que representem ameaça a tudo quanto estabelecido por Deus ao homem possam ser bem-sucedidas.

- Jesus nos dá um perfeito modelo de como devemos proceder no exercício de nossa cidadania terrena. Ele, sendo o Filho de Deus, tendo vindo do céu, não deixou de participar da vida política de Seu povo, não deixou de buscar o aprimoramento e o bem-estar de sua pátria terrena, e, nós, que somos Seus discípulos, devemos proceder de igual maneira, mostrando, assim, que somos Seu corpo.

- O Brasil, acompanhando esta maligna inclinação de todo o mundo, tem sofrido sucessivos ataques. Muitos têm se levantado para aprovação de leis que violam a vida, como a autorização de pesquisa com células-tronco embrionárias, tentativas de aprovação do aborto e da eutanásia, sem se falar nas medidas que tentam solapar a família e a moralidade, como os projetos do “estatuto das famílias” e da criminalização da homofobia, sem se falar na tentativa de se legalizar, via Supremo Tribunal Federal, a união homossexual, em iniciativa do governador do Estado do Rio de Janeiro. Todas estas iniciativas mostram como o maligno tem agido na omissão dos crentes e é fundamental que nos unamos em oração, jejum e ações efetivas para que resistamos a estas investidas satânicas. Mas, para que possamos resistir ao diabo e ele fuja de nós, impedindo que nossa pátria terrena se enverede ainda mais no pecado, torna-se indispensável que, em primeiro lugar, sujeitemo-nos a Deus (Tg.4:7). Santificação, humilhação e conversão: eis o preço que os discípulos de Jesus devem pagar para que o Brasil não nos seja cada vez mais hostil. Estamos dispostos a pagá-lo?

Colaboração para o Portal Escola Dominical – Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco

O sentimento que divide, inimiza, retalia, detrai, amaldiçoa, persegue, não será jamais o da pátria. A Pátria é a família amplificada.

E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício. É uma harmonia instintiva de vontades, uma desestudada permuta de abnegações, um tecido vivente de almas entrelaçadas. Multiplicai a célula, e tendes o organismo.

Multiplicai a família, e tereis a pátria. Sempre o mesmo plasma, a mesma substância nervosa, a mesma circulação sangüínea. Os homens não inventaram, antes adulteraram a fraternidade, de que Cristo lhes dera a fórmula sublime, ensinando-os a se amarem uns aos outros: “Diliges proximum turum sicut ipsum”.

Dilatai a fraternidade cristã, e chegareis das afeições individuais às solidariedades coletivas, da família à nação, da nação à humanidade. Objetar-me-eis com a guerra!

Eu vos respondo com o arbitramento. O porvir é assaz vasto para comportar esta grande esperança. Ainda entre as nações, independentes, soberanas, o dever dos deveres está em respeitar nas outras os direitos da massa.

Aplicai-o agora dentro das raias desta: é o mesmo resultado; benqueiramo-nos uns aos outros, como nos queremos a nós mesmos. Se o casal do nosso vizinho cresce, enrica e pompeia, não nos amofine a ventura, de que não compartimos. Bendigamos, antes, na rapidez de sua medrança, no lustre da sua opulência, o avulsar da riqueza nacional, que se não pode compor da miséria de todos.

Por mais que os sucessos nos elevem, nos comícios, no foro, no parlamento, na administração, aprendamos a considerar no poder um instrumento de defesa comum, a agradecer nas oposições as válvulas essenciais da segurança da segurança da ordem, a sentir no conflito dos antagonismos descobertos a melhor garantia da nossa moralidade.

Não chamemos jamais de inimigos da pátria aos nossos contendores. Não averbemos jamais de traidores à pátria os nossos adversários mais irredutíveis.

A pátria não é ninguém: são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à idéia, à palavra, à associação.

A pátria não é um sistema, nem é uma seita, nem um monopólio, nenhuma forma de governo: é o céu, o solo, o povo, tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade. Os que a servem são os que não invejam, os que não inflamam, os que não conspiram, os que não sublevam, os que não desalentam, os que não emudecem, os que não se acobardam, mas resistem, mas ensinam, mas esforçam, mas pacificam, mas discutem, mas praticam a justiça, a admiração, o entusiasmo. Porque todos os sentimentos grandes são benignos e residem originariamente no amor. No próprio patriotismo armado o mais difícil da vocação, e a sua dignidade não está no matar, mas morrer. A guerra, legitimamente, não pode ser o extermínio, nem a ambição: é, simplesmente, a defesa. Além desses limites, seria um flagelo bárbaro, que o patriotismo repudia…

Texto: Rui Barbosa, 1903.

Fonte: http://amaccord.multiply.com/journal/item/30 Acesso em 08 abr. 2008

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