Pr. César Moisés

Leitura Bíblica em Classe
Josué 20.1-6

Esboço

Introdução
As Cidades de Refúgio e Seus Propósitos (Js 20.2-6)
O Sentido Figurado das Cidades de Refúgio (Js 20.7,8)
Conclusão

Título deste subsídio: Refúgio Imerecido e Condicional

Palavras-chave: Justiça. Vingador. Refúgio.

Refúgio Imerecido e Condicional

Introdução

Aparentemente parece sem sentido falar sobre as cidades de refúgio. O que um assunto desses tem que ver com a igreja de hoje? Se você tomar a mensagem essencial e a transportá-la para a questão soteriológica, descobrirá que é possível aplicar as verdades essenciais deste tema e com isso produzir edificação.

A Legislação do Antigo Testamento

Diante das injustiças do mundo antigo, a legislação mosaica era um grande progresso em relação ao que existia de similar. Verificar a existência de uma atenuante (mesmo não pagando com a vida, o que a lei previa, a pessoa ficava “confinada” a um local que não era sua cidade) para o homicídio culposo (sem intenção de matar), como é o caso das cidades de refúgio, em uma época tão primitiva, é reconhecer a grandeza de Deus e sua coerência ao tratar conosco (o mesmo não sendo verdade, de nossa parte, em relação a Ele).

Os anciãos que julgavam o caso às portas da cidade, analisavam, posteriormente, a questão com mais vagar. Isso demonstra a sabedoria e a coerência de pensamento, bases sobre as quais a cultura judaico-religiosa estava sendo erigida. Daí o porquê de reconhecer que os princípios que fundamentam as regras são imutáveis e perfeitamente válidos para os dias atuais.

Cabe aqui refletir brevemente sobre a função da legislação mosaica, pois a sua compreensão é a chave para se entender o sentido dos preceitos que, aos olhos pragmáticos de hoje, parecem totalmente sem fundamento e meros caprichos legalistas.

Sobre este assunto, afirma o pastor Geremias do Couto em sua obra A Transparência da Vida Cristã:

É bem verdade que, quando lemos o Pentateuco, deparamo-nos com algumas exigências incompreensíveis e estranhas que não fazem sentido ao mundo contemporâneo. Mas elas precisam ser olhadas como fruto de uma época e à luz do propósito maior de Deus. Philip Yancey assim explica o fato:

[...] detecto no Antigo Testamento um movimento paulatino, mas seguro em direção à graça. Os hebreus viviam em tempos selvagens e bárbaros. As suas leis, que nos podem parecer severas, são na verdade bem atenuadas se comparadas às de seus vizinhos. Eles estabeleceram regras básicas sobre a guerra, introduzindo nas leis o respeito pelos pobres e o cuidado com o meio ambiente. Impuseram limites à violência e construíram cidades de refúgio. Ao olhar para uma época de vingança e sangue, escravidão, poligamia e casamento por contrato com a mulher do irmão (quando falecido), é preciso lembrar que Deus tinha de tratar com as condições morais das pessoas no estágio em que estavam. Nos escritos desse período estava a semente, mas só a semente, da graça divina (sem grifo no original).1

Entender este ponto fundamental é de importância inestimável para que seja dado o devido valor aos preceitos do Antigo Testamento. Um grande equívoco cometido por alguns expositores é fazer distinções tais como “lei moral”, “lei cerimonial”, “lei cívica”. Tal divisão não é correta, pois a lei é uma só, contemplando diversos aspectos da vida humana, tendo preceitos para várias questões que visam, finalmente, a um único objetivo: a glorificação do Criador através do nosso “correto funcionamento”:

Assim, todas as normas cerimoniais, morais ou cívicas da lei mosaica, apesar de seu caráter local e transitório, não cabendo à igreja observá-las na realidade cultural contemporânea, foram embasadas nos princípios de caráter explicitamente moral e espiritual que aparecem na mesma lei, cuja universalidade está clara nas Escrituras. São válidas para “todas as pessoas, em todas as épocas e em todos os lugares”. São esses princípios que o Senhor reitera no Sermão do Monte e declara de maneira contundente a sua importância como marco distintivo do Reino de Deus. São referenciais permanentes e imutáveis que se aplicam em qualquer cultura e expressam não só o padrão de santidade exigido por Deus, mas também o tipo de reação que se espera do crente diante das diferentes circunstâncias da vida.2

O que se quis demonstrar aqui é o fato de que existe uma correta maneira de viver. Mas não se trata de viver irrefletida e mecanicamente um estereótipo com um fim de tornar-se merecedor do favor divino, mas exatamente o contrário, pois viver dessa forma é a conseqüência de ser nascido de novo.

A bem da verdade, o ser humano, após a Queda, é o único que pode, consciente e deliberadamente, infringir o curso normal de sua existência, sendo imoral e transgressor. O mesmo não ocorre, ou pelo menos não deveria, com a natureza. Ela geralmente segue seu curso normal, ou seja, o funcionamento do universo acontece sob regras bastante rigorosas e inexoráveis, pois se fosse diferente, com certeza não teria escrito este texto e você não o estaria lendo! É claro que a própria criação sofre de intempéries proporcionadas pela Queda, mas existe o fator expropriação humana que não pode ser esquecido. Mesmo reconhecendo este tipo de comportamento, a ambição e o egoísmo (males que proporcionam, além do mal moral, a degradação natural), são, também, resultado da desobediência dos nossos progenitores.

A lei então era uma forma de fazer com que o povo, em razão de seu relacionamento com o Eterno e por tudo que Ele lhe proporcionara, se mantivesse dentro de um determinado padrão ético. Mesmo porque Israel precisava desenvolver sua identidade própria. A obediência aos preceitos da lei, deveria ocorrer por amor a Deus e não como forma de se tornar digno das benesses divinas.

Uma curiosidade deste assunto, é que a Bíblia não relata um único caso em que as cidades de refúgio tenham sido utilizadas, ou que o vingador de sangue tenha executado alguém. Isso não significa que não tenha ocorrido nenhum crime ou acidente fatal entre o povo, entretanto, as Escrituras não relatam. Esse “detalhe” aponta para uma verdade fundamental: a Bíblia está interessada em registrar os fatos que são importantes para se entender o plano de Deus para a formação do seu povo e, conseqüentemente, da Igreja. Ela não ocupa o seu texto para tratar de questões secundárias. Este é um ponto pedagógico e digno de ser observado por todo expositor ou professor: dê valor às questões arteriais e basilares, não perca tempo com os assuntos terciários.

Refúgio Imerecido e Condicional

Em qual situação estava Lutero ao escrever Castelo Forte? Por certo, encontrava-se o reformador alemão em uma circunstância adversa, mas a leitura de textos como o de Provérbios 18.10, lhe deu força e inspiração. Afinal, como escreveu Frida Vingren, na letra do hino 126 da Harpa Cristã, “Os mais belos hinos e poesias/ Foram escritos em tribulação”.

Na verdade, não era Lutero quem se encontrava, naquele momento, em dificuldades:

Lá por volta do ano 1500 da nossa era, estava triunfante o movimento da Reforma Religiosa na Europa. Iniciado por Martinho Lutero e coadjuvado por Melanchton (um leigo-teólogo), Calvino, Zwinglio, Huss, Farel e outros, tomou logo conta de todos os países; mas no ano de 1523, em Bruxelas, dois jovens, cujo único crime fora a sua profissão de fé na nova doutrina, foram queimados. Em honra a esses dois mártires, Lutero escreveu e compôs a música do seu primeiro hino: Castelo Forte é nosso Deus, o qual é uma paráfrase do Salmo 46.3

Quem já não encontrou vitalidade e alento, quando em momentos extremamente difíceis leu textos como estes:

Ouve, ó Deus, o meu clamor; atende à minha oração. Desde o fim da terra clamo a ti, por estar abatido o meu coração. Leva-me para a rocha que é mais alta do que eu, pois tens sido o meu refúgio e uma torre forte contra o inimigo (Sl 61.1-3).

Torre forte é o nome do Senhor; para ela correrá o justo e estará em alto retiro (Pv 18.10).

Eu mesmo experimentei o refrigério e a quietude da alma quando, passando por terríveis problemas, li a Palavra de Deus durante as altas horas da madrugada. Acredito até que a Bíblia se reveste de particular importância quando não estamos nos aproximando dela para extrair mais um sermão ou um ponto de partida para ministrar uma aula.

Uma postura, talvez bem intencionada, que tem sido prática corrente na vida de milhares de pessoas por esse Brasil afora ? algumas até nem crentes são ? é o costume de deixar a Bíblia aberta nos Salmos 23 ou 91. Tais pessoas usam os textos bíblicos como se eles fossem uma espécie de “amuleto” para dar sorte ou para espantar “mau olhado”. Será que esta é a forma correta de se aplicar a mensagem que aquelas porções escriturísticas encerram?

Observe que os dois Salmos iniciam-se fazendo referência à ovelha do Pastor e ao habitante do amparo do Senhor. Os que não são ovelhas do Sumo Pastor não se enquadram na mensagem deste Salmo. Os que ainda teimam em confiar em suas próprias forças, insistem na “autonomia” adquirida no Éden e só lembram do “esconderijo do Altíssimo” em momentos de dificuldades, não podem dizer ao Senhor: “Tu és o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio”.

Nesta mesma linha de pensamento, fazer um paralelo das cidades de refúgio com a graça é uma oportunidade ímpar de refletir sobre nossa condição “antes” e “depois” do sacrifício vicário de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Estando “no” Senhor, a Palavra nos dá garantia que estamos imunes da condenação: “Agora, porém, já não existe nenhuma condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo” (Rm 8.1; sem grifo no original). Perceba que a absolvição é para os que “estão” em Cristo, para os que se submetem ao pastoreio do Meigo Nazareno, para os que fizeram confissão de seus pecados, reconheceram sua miséria e estão refugiados “debaixo de suas asas”.

Talvez alguém esteja admirado perguntando: “Mas quem não quer?” Foi o Mestre que, chorando, lamentou: “Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram” (Mt 23.37; NVI). Assim como os judeus, os ocidentais temos rejeitado o senhorio de Jesus de Nazaré. Não obstante, o que nenhum de nós pode esquecer, é que não temos condições de fazer como o líder indiano pacifista, Mahatma Gandhi, que, por ser advogado, diante dos tribunais fazia sua própria defesa. Temos um Advogado, o Único que pode nos defender, pois do ponto de vista humano o nosso “crime” é inafiançável, e só o sangue de Jesus pode nos purificar de todo o pecado (1 Jo 2.1,7).

Do paralelo entre as cidades de refúgio e a graça, extraímos duas grandes lições: 1) O criminoso inocente, só estaria fora de risco se estivesse dentro das cidades de refúgio. Só podem contar com o Senhor como seu refúgio aqueles que estão nEle. 2) Não se pode perder de vista a verdade que o refúgio das cidades era somente para o inocente, pois o culpado pagava com a vida. A graça, como alguém acertadamente disse, “é recebermos o que não merecemos, e misericórdia é deixar de receber aquilo que merecíamos”. Assim, a graça não existe para o inocente ? posto que não existe ninguém mesmo que o seja ?, mas ela é a providência de Deus para o culpado. Glória ao Senhor!

Notas
1 COUTO, Geremias do. A Transparência da Vida Cristã. 1.ed. de Janeiro: CPAD, p.70.
2 Ibid., p.71.
3 Disponível em: 
http://209.85.173.132/search?q=cache:LiUKBU1TgtMJ:www.musicaeadoracao.com.br/hinos/historias_hinos/ha_033.htm+%22Hino+Castelo+Forte%22&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br . Acesso dia 12/03/09.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*
*
Website