As portas do inferno – 2


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TEMA – Tempos trabalhosos: como enfrentar os desafios deste século

COMENTARISTA : Elinaldo Renovato de Lima

ESBOÇO Nº 7

LIÇÃO Nº 7 – AS PORTAS DO INFERNO

                                   A Igreja sempre sofrerá a oposição das portas do inferno em sua peregrinação rumo a Jerusalém celestial.

INTRODUÇÃO

- Ao revelar o grande mistério que estava oculto desde o princípio dos séculos, ou seja, a Igreja (Ef.3:4,5), o Senhor Jesus logo deixou claro que o que acompanharia a Sua Igreja sobre a face da Terra seria a oposição das hostes espirituais da maldade (Mt.16:18), que chamou de “portas do inferno”.

- O cristão tem de estar plenamente consciente que, apesar de termos prometidas todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Ef.1:3), são inevitáveis, inafastáveis e certas as aflições enquanto estivermos nesta Terra (Jo.16:33; At.14:22), promovidas pelo adversário de nossas almas, mas, se perseverarmos até o fim, seremos vencedores (Mt.10:22; 24:13; Mc.13:13; Jo.16:33; II Tm.4:7,8; I Jo.5:4).

I – O QUE SÃO AS PORTAS DO INFERNO

- O título de nossa lição é diretamente retirado da chamada “declaração de Cesaréia”, como é conhecida pelos estudiosos da Bíblia a revelação de Jesus a respeito da Igreja, que está em Mt.16:18. Após o próprio Pai ter revelado a Pedro que Jesus era o Cristo, o Filho de Deus vivo (Mt.16:16), Jesus, então, revela o grande mistério que estava oculto desde antes da fundação do mundo, qual seja, o de que Deus iria formar, de judeus e gentios, um povo espiritual, um povo que teria comunhão com Ele, porque teria o perdão dos seus pecados e, assim, se reconciliaria com o seu Deus, vivendo com Ele eternamente (Ef.3:3-6).

- A revelação da formação deste povo, a Igreja, era algo que, até então, era desconhecido de todos os seres do universo, era um segredo de Deus que havia sido guardado até aquele instante para ser revelado para a humanidade. Assim como Pedro havia recebido uma revelação do Pai que lhe permitiu identificar em Cristo o Filho de Deus vivo, o Salvador, assim também todo e qualquer homem poderia ter acesso ao Pai, mediante o Filho, pela comunhão com o Espírito Santo, restabelecendo-se aquele estado de convivência entre Deus e o homem que havia sido destruído pela entrada do pecado no mundo.

- Ninguém sabia, até então, que Deus criaria um povo Seu, especial, zeloso de boas obras, um povo que teria comunhão com Ele, por causa da derrubada da parede de separação, que era o pecado (Is.59:2; Ef.3:14:14-16). Nem mesmo o adversário de nossas almas tinha conhecimento desta estratégia divina, visto que este intento divino não havia sido manifestado aos homens (Ef.3:5), o que o impedira de saber, já que o diabo não é onisciente. O que Satanás sabia era que Deus enviaria o Seu Filho para a salvação do homem, mas desconhecia, por completo, que tal salvação se daria mediante a criação de um novo povo, de uma nova nação, que teria acesso ao Pai em um mesmo Espírito, por meio do Filho (Ef.3:18).

- Não foi por outro motivo, pois, que Jesus, assim que revelou este mistério, que passou a ser conhecido não só dos homens, mas, também, dos anjos de Deus e do diabo e seus anjos maus, que o Senhor Jesus, de imediato, sabedor da oposição que sempre faz o adversário à obra de Deus (por isso seu nome é Satanás, que significa “adversário”, “opositor” em hebraico), fez questão de observar que esta Igreja haveria de ter uma companhia indesejada, mas inevitável enquanto estivesse sobre a face da Terra: as portas do inferno.

- É oportuno verificar, nesta declaração de Jesus, o foco divino no que tange à obra de Deus e ao papel da Igreja, foco este que se tem perdido nestes tempos trabalhosos em que vivemos. Ao anunciar o “mistério de Cristo”, Jesus poderia ter, como se costuma dizer, ter “dourado a pílula”, ou seja, ter anunciado algumas promessas para esta Igreja, povo abençoado e que tem um sem-número de promessas na Palavra de Deus.

- Jesus poderia, por exemplo, ter dito que a Igreja seria edificada por Ele e moraria eternamente com o Senhor na nova Jerusalém, como, aliás, consta das Escrituras em Ap.21:3. Poderia, também, ter dito que a Igreja receberia o revestimento de poder para ser testemunha dEle diante dos homens, como o próprio Jesus anunciou instantes antes de Sua ascensão aos céus (At.1:8) ou, ainda, que a Igreja faria obras maiores que as que seriam realizadas no ministério terreno do Senhor (Jo.14:12). Seriam declarações verdadeiras e animadoras para este povo, cuja existência era revelada naquele momento sublime da história do plano divino para a salvação.

- Entretanto, ao contrário de muitos “pregadores” dos tempos trabalhosos, Jesus não se importava em “animar”, “incentivar” ou “estimular” o Seu auditório, para criar um “clima psicológico favorável” para a manifestação do Espírito Santo. Jesus tinha um compromisso muito mais sério e importante, tinha consciência da Sua responsabilidade diante do Pai, que era o de fazer a vontade do Pai, a razão de ser de Sua vida, a ponto de ter denominado de a “Sua comida” (Jo.4:34), como a indicar que a Sua sobrevivência sobre a face da Terra somente se dava por causa deste propósito de cumprir a vontade de Seu Pai.

- Diante desta consciência de Seu papel na obra do Pai, Jesus, de imediato, ao revelar o surgimento da Igreja, de pronto salientou que o que caracterizaria a vida de um cristão seria a oposição das portas do inferno contra si, a luta incessante contra as hostes espirituais da maldade, como diria, anos mais tarde, o apóstolo Paulo (Ef.6:12). Se alguns cristãos são menos abençoados do que outros, em termos materiais, se uns têm uma longa vida de comunhão com Cristo e outros apenas alguns instantes (como o ladrão da cruz), uma coisa é certa: todos sofrerão a oposição das “portas do inferno”, todos terão de enfrentar uma batalha renhida contra as forças malignas que, em todos os setores da “vida debaixo do sol”, estarão sempre sendo utilizados para tentar nos impedir de chegar aos céus.

- A expressão “portas do inferno” constante das Versões Almeida (Revista e Corrigida, Revista e Atualizada, Fiel e Corrigida, Edição Contemporânea),  da Versão do Pe. Antonio Pereira de Figueiredo, da Bíblia na Linguagem de Hoje, da Versão dos Monges de Mardesous, é traduzida por “portas do Hades” na Nova Versão Internacional, na Bíblia de Jerusalém, na Tradução Brasileira e na Tradução da Imprensa Bíblica Brasileira, por “potência da morte” na Tradução Ecumênica Brasileira, por “forças do inferno” na Bíblia Viva, por “poder da morte” na Edição Pastoral e por “morte” na Nova Tradução na Linguagem de Hoje. A expressão grega é “púlai hadou” (????? ????), ou seja, literalmente “portas do Hades”.

- Esta expressão, como ensina R.N. Champlin, “…era uma expressão oriental para indicar a corte, o trono, o poder e a dignidade do reino do mundo inferior. No V.T. (como aqui no texto), indica o poder da morte. A idéia principal é que a igreja nunca será destruída por qualquer poder, nem mesmo pela morte ou pelo resultado da morte, nem pelo reino do mal. A igreja é eterna; a morte, ou qualquer outro poder oculto e perverso, jamais poderão ser vitoriosos sobre ela…” (O Novo Testamento interpretado versículo por versículo, v.1, p.447, com. Mt.16:18).

- Para os comentaristas da Bíblia de Jerusalém, “Hades” designa a “morada dos mortos” e “…as suas ‘portas’ personificadas evocam as potências do Mal que, depois de terem arrastado os homens à morte do pecado, os encadeiam definitivamente na morte eterna. Seguindo o seu Mestre que morreu, ‘desceu aos infernos’ (I Pe.3:19) e ressuscitou 9At.2:27,31), a Igreja deverá ter por missão arrancar os eleitos ao império da morte temporal e, sobretudo, eterna, para conduzi-los ao Reino dos Céus (cf Cl.1:3, I Co.15:26; Ap.6:8; 20:13)…” (BÍBLIA DE JERUSALÉM, nota “a”, p.1734). Como afirmam os comentaristas da Tradução Ecumênica Brasileira, “…O Hades não conseguirá reter na morte os membros da comunidade messiânica congregada por Jesus…” (BÍBLIA TRADUÇÃO ECUMÊNICA BRASILEIRA, nota “o”, p.1890-1).

- Os comentaristas da Bíblia de Estudo Plenitude afirmam que “…a expressão portas do inferno significa que ‘o poder da morte’ não pode evitar o avanço do Reino, nem reivindicar vitória sobre aqueles que pertencem a Deus…” (BÍBLIA DE ESTUDO PLENITUDE, com. Mt.16.18, p.971). Para os comentaristas da Bíblia de Estudo NVI, “…as ‘portas do Hades’ podem significar os ‘poderes da morte’, i.e., todas as forças opostas a Cristo e a Seu reino…” (BÍBLIA DE ESTUDO NVI, com. Mt.16:18, p.1644).

- O comentarista da Bíblia de Estudo Pentecostal afirma, por sua vez, que “…as ‘portas do inferno’ representam Satanás e a totalidade do mal no mundo, lutando para destruir a igreja de Jesus Cristo” (BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL, com. Mt.16:18, p.1421); Matthew Henry, o grande comentarista bíblico inglês, assim também entendeu, ao dizer que “…as portas do inferno são os poderes e políticas do reino do diabo, a cabeça e os chifres do dragão, pelos quais ele faz guerra contra o Cordeiro; tudo o que provém das portas do inferno, tendo sido produzido e tramado lá. Elas lutam contra a igreja através da oposição das verdades do evangelho, da corrupção das ordenanças do evangelho, através da perseguição dos bons ministros e dos bons cristãos, pressionando ou dirigindo, persuadindo por astúcia ou forçando por crueldade, aqueles que são inconsistentes com a pureza da religião, este é o desenho das portas do inferno, para arrancar o nome da Cristandade (Sl.83:4), para devorar o Filho do homem (Ap.12:9), para destruir completamente esta cidade.…” (HENRY, Matthew. Matthew Henry Complete Commentary on the Whole Bible. Disponível em: http://bible.crosswalk.com/ Commentaries /MatthewHenryComplete/mhc-com.cgi?book=mt&chapter=016 Acesso em 29 mar. 2007) (tradução nossa de texto em inglês).

- Na Bíblia de Estudo de Genebra de 1599, as “portas do inferno” são comparadas às “fortalezas”, mencionadas por Paulo em II Co.10:4, sendo consideradas como “…os inimigos da Igreja [que] são comparados a um reino forte, e, conseqüentemente, por ‘portas’ são mencionadas cidades que se fazem fortes com preparação sábia e fortificações, e este é o significado: tudo o que Satanás pode fazer por astúcia e por força…” (BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA, com. Mt.16:18, nota “m”. Disponível em: http://bible.crosswalk.com/Commentaries/GenevaStudyBible/gen.cgi?book=mt&chapter=016 Acesso em 29 mar. 2007) (tradução nossa de texto em inglês). É este também o sentido dado por John Wesley, que, em suas Notas Explanatórias das Escrituras, afirma que “…como as portas e as muralhas eram a força das cidades, e como as cortes de justiça se reuniam nas portas, esta frase propriamente significa o poder e a política de Satanás e seus instrumentos.…” (WESLEY, John. John Wesley’s Explanatory Notes on the Whole Bible. Disponível em: http://bible.crosswalk.com/Commentaries/WesleysExplanatoryNotes /wes.cgi?book=mt&chapter=016 Acesso em 29 mar. 2007) (tradução nossa de texto em inglês).

- Pelo que podemos observar, pois, as “portas do inferno” constituem-se no conjunto das forças e estratégias utilizadas pelo inimigo de nossas almas, o “deus deste século” (II Co.4:4), o “príncipe deste mundo” (Jo.12:31; 14:30; 16:11), a fim de impedir o avanço da Igreja, e da obra que tem a realizar para o Senhor enquanto Ele não vem arrebatá-la. O aumento da operação das “portas do inferno” nestes tempos trabalhosos em que vivemos é mais um dos desafios que se apresentam ao povo de Deus.

II – A PERSEGUIÇÃO DAS AUTORIDADES: O PODER POLÍTICO CONTRA A IGREJA

- O ilustre comentarista selecionou para esta lição a perseguição como tema, estabelecendo a “perseguição” como a forma de manifestação das “portas do inferno”. Não resta dúvida de que a perseguição é uma das armas utilizadas pelo adversário para tentar impedir o avanço da Igreja, mas não é tão somente através dela que se identificam as “portas do inferno”. É interessante observamos que há, no texto sagrado, uma pluralidade, seja na expressão “portas do inferno”, como nas expressões correlatas que se referem à atuação maligna contra a Igreja, como “fortalezas” (I Co.10:4), “hostes espirituais da maldade” (Ef.6:12) ou “ardis” (II Co.2:10,11).

- A pluralidade de ações é algo que é inerente à atuação do adversário, pois ele é a “mais astuta de todas as alimárias do campo” (Gn.3:1), o pai da mentira (Jo.8:44), um ser que não tem firmeza, que vive a vaguear (Jó 1:7), volúvel e que tem como especialidade a variedade, visto que as mentiras podem ser muitas, sendo única tão somente a verdade, que é um elemento ausente de seu caráter. Assim, não é apenas pela perseguição que se apresentam as “portas do inferno”, mas, também, de modo muito mais sutil do que a perseguição disfarçada. Por isso, além deste modo de demonstração das “portas do inferno”, que é o tema e objeto dos comentários das Lições Bíblicas, trataremos de outros, ainda que de modo sucinto, até diante das lições que ainda estão por vir.

- Quando Jesus nos fala que “as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja”, indica-nos, de pronto, que há uma oposição entre a Igreja e as “portas do inferno”, que haveria uma luta entre uma e outra. Como corpo de Cristo (I Co.12:27), a Igreja tem de prosseguir a obra realizada pelo Senhor Jesus em Seu ministério terreno e Jesus veio ao mundo para “andar fazendo bem e curar a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com Ele” (At.10:38), “desfazer as obras do diabo” (I Jo.3:8). Assim, como pode o diabo estar a favor da Igreja, se a missão desta é desfazer tudo quanto ele tem feito, livrar os homens da escravidão do pecado e das cadeias por ele impostas por intermédio do domínio da carne sobre o homem?

- A investida de Satanás contra a Igreja começou no mesmo dia da declaração de Cesaréia, pois o diabo não se cansa de acusar, noite e dia, os salvos (Ap.12:10). O primeiro a ser atacado foi a própria cabeça da Igreja, aliás o único membro da Igreja até então. Logo depois que Jesus revelou o mistério da Igreja, começou a dizer aos discípulos que seria necessária a Sua morte e ressurreição para que a Igreja se formasse, para que houvesse salvação(Mt.16:21) e o diabo usa a boca do próprio Pedro, o mesmo que havia sido instrumento do Pai, para tentar dissuadir o Senhor de Seu intento. Através de Pedro, o inimigo tentou criar em Jesus um sentimento de auto-piedade, de auto-compaixão, que o impedisse de renunciar a si mesmo e de levar avante o projeto divino da salvação. Jesus repreendeu o inimigo de pronto, dizendo que Satanás servia de escândalo, de tropeço para Cristo e que ele só compreendia as coisas dos homens, mas não as de Deus (Mt.16:22,23).

- Já no ensinamento de Cristo, vemos que o trabalho da salvação do homem, que é a obra de Jesus, hoje anunciada pela Igreja, teria a oposição de pessoas que, usadas pelo adversário, se levantariam contra o povo de Deus, pessoas que seriam “grandes” na sociedade, pessoas dotadas de posição social e de autoridade, com poder de ditar as leis, de suprimir a liberdade e, muitas vezes, até a própria vida dos cristãos. Jesus disse que deveria ir a Jerusalém, a capital dos judeus, a cidade do poder judaico então existente e “padecer muito dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas”. Jesus teria de sofrer nas mãos das autoridades civis, religiosas e intelectuais. Como diz conhecido cântico, “assim como fizeram ao meu Mestre, me odeiam porque eu O aceitei” (Jo.15:20).

- “Perseguição” é o “ato de seguir até o fim, instar, reclamar, buscar, procurar, prosseguir, continuar”, sendo uma palavra que vem do latim “persequor”, que, por sua vez, vem da raiz “sequ”, que tem a idéia de “que segue assiduamente, que prossegue sem descanso; que não larga, que não descontinua”, ou, numa expressão bem popular, “que não larga do pé”. Desde o anúncio da “declaração de Cesaréia”, o adversário não “larga do pé” da Igreja, não descansa em seu intento de matar, roubar e destruir a noiva do Cordeiro (Jo.10:10).

- Assim que uma pessoa aceita a Cristo e passa a pertencer à Igreja, passa a ter em seu encalço o adversário, que não descansa enquanto não conseguir tirar esta pessoa da luz, trazendo-a de volta para as trevas. É uma luta incansável do adversário e, por isso, o Senhor nos manda ter bom ânimo, pois não podemos nos cansar. O diabo não cansa, dia e noite vive a nos acusar, a tentar nos fazer abandonar a jornada. Mas, temos de ter confiança em Cristo, pois o diabo não consegue arrebatar aqueles que estão nas mãos do Senhor (Jo.10:28), embora o Senhor nunca impeça alguém de, voluntariamente, deixar os Seus caminhos.

- A “perseguição” dá-se, em primeiro lugar, por intermédio da utilização da autoridade. Jesus tinha de ir a Jerusalém, a capital da Judéia, a sede do poder, onde estavam os “anciãos”. O poder político é uma das armas usadas pelo adversário para tentar derrotar a Igreja. Não nos esqueçamos de que a expressão de Jesus é “portas do inferno” e que as portas, como vimos supra, falava das autoridades de uma cidade, do poder de uma cidade daquele tempo. Nas portas, estavam as defesas (cfr. Ne.7:3- autoridade militar) e os juízes para julgar (cfr. Rt.4:1,2 – autoridade judiciária).

- Conquanto o poder político não seja em si um mal, pois é algo estabelecido por Deus (Rm.13:1,2), o fato é que, desde o início da história da humanidade, o homem, desvirtuado pelo pecado, tem feito deste poder político um instrumento de sua rebeldia contra Deus, querendo, com ele, tornar-se grandioso e poderoso na Terra (Gn.10:8), através dele se considerar auto-suficiente e de posse dele sentir-se alguém que pode menosprezar o Senhor (Ex.5:2). Tanto assim é que as próprias Escrituras nos mostram que há um sistema político alheio e rebelde ao Senhor, representado pela estátua do sonho do rei Nabucodonosor, interpretado por Daniel (Dn.2), chamado no Apocalipse de Babilônia (Ap.18:2) e que, por se ter construído em rebeldia ao Senhor, está a serviço do inimigo para tentar impedir o avanço da Igreja.

- Desde o início da história da Igreja, temos visto a utilização do poder político para tentar impedir a pregação do Evangelho, que é a tarefa primordial da Igreja. Ainda em Jerusalém, a igreja primitiva recebeu a ordem de não mais pregar o Evangelho do Sinédrio, o principal órgão judaico daquele tempo (At.4:18), ordem que, logicamente, não foi atendida, visto que mais importa obedecer a Deus do que aos homens (At.5:29).

- A perseguição feita pelo poder político traz inúmeros sofrimentos à Igreja. Por causa do desatendimento da ordem do Sinédrio, os discípulos foram presos (At.5:18), açoitados (At.5:40) e até mortos, como ocorreu com Estêvão(At.7:58-60) e Tiago, o filho de Zebedeu (At.12:1,2). Que dizer, então, da perseguição sofrida pelos cristãos, que foram obrigados a sair de Jerusalém (At.8:1)? E os milhares de cristãos mortos durante as dez perseguições do Império Romano, profetizadas em Ap.2:10?

- A perseguição do poder político para impedir a pregação do Evangelho ainda prossegue em nossos dias, mesmo diante das grandes conquistas relacionadas com a proteção e o reconhecimento dos direitos fundamentais da pessoa humana. Ainda hoje, em pleno século XXI, pessoas são presas, torturadas e mortas única e exclusivamente porque professam o nome do Senhor Jesus, como se pode ver em boa parte dos países muçulmanos. Temos de orar por estes irmãos, os mártires destes tempos trabalhosos, bem como colaborar com iniciativas como as da “Missão Portas Abertas” (www.portasbaertas.org.br) , que tem sido uma grande arma da Igreja na ajuda à igreja perseguida.

- Mas a perseguição não se dá apenas pelo uso da força bruta, da proibição clara e objetiva de pregação do Evangelho, máxime nos dias trabalhosos em que vivemos, onde as sutilezas do inimigo estão mais aguçadas do que nunca, em que, como dissemos no início deste trimestre letivo, o inimigo não se apresenta ameaçador, bramando como leão, buscando a quem possa tragar (I Pe.5:8), mas como a astuta e quase imperceptível serpente (Gn.3:1), que, sorrateiramente, se insere no meio do povo de Deus e prepara, com muito cuidado, o seu bote fatal.

- Muitas vezes, o inimigo não se apresenta violentamente,  com penas cruéis e violentas contra os servos do Senhor, mas se utiliza do poder político para minar, de modo sutil e sorrateiro, o povo de Deus, enfraquecendo-o sem que ele o possa perceber. Nos dias do apóstolo Paulo, o procônsul romano Sérgio Paulo mostrava-se simpático à Palavra de Deus, mas era impedido de dar um passo em direção a Jesus Cristo porque Elimas, o encantador, resistia, de modo sorrateiro e oculto, não permitindo que o procônsul ouvisse o Evangelho. Elimas jamais poderia agir de forma violenta, pois, além de não ter autoridade para tanto, estava diante de um varão prudente, como era o procônsul. Entretanto, ao perceber, pelo discernimento espiritual, o que se passava, Paulo não titubeou e desmascarou a artimanha deste “filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça”(At.13:8).

- A “perseguição silenciosa, astuta, camuflada” é a mais dura de todas as perseguições, porque não é aparente, não traz repugnância aos olhos da sociedade e se apresenta como algo normal e compreensível. “…As crueldades gentílicas não prejudicarão os cristãos; ao contrário, ‘o sangue dos cristãos é como semente que brota’…”, dizia Tertuliano (150/55-222), o grande apologista cristão. Se as dez perseguições romanas aumentaram o número de cristãos, a perseguição sutil, camuflada praticamente destruiu a Igreja, depois que foi instituída por Constantino, o imperador que decretou o “Édito da Tolerância”, norme bem apropriado para a lei que permitiu que os cristãos tivessem liberdade de culto no Império Romano, datado de 313.

- O “Édito da Tolerância” de Constantino é o protótipo da “perseguição camuflada”. Através deste tipo de perseguição, não se proíbe a Igreja de pregar o Evangelho e de cultuar a Deus, mas, sim, de combater o pecado. Vivemos um período similar. A Igreja não é proibida de servir a Deus, de pregar o Evangelho, mas é proibida de combater o pecado. O poder político é ardilosamente orientado pelo inimigo de nossas almas para impedir que o pecado seja combatido.

- A idéia básica da “perseguição camuflada” é a pregação da “tolerância máxima”, ou seja, a elaboração de leis, regras e regulamentos que exijam das pessoas a “máxima tolerância”, tolerância não entendida como o respeito ao livre-arbítrio das pessoas, o que é um comportamento que todo servo do Senhor deve ter, uma vez que Deus criou o homem com o livre-arbítrio e o respeita, mas, sim, de consentimento e concordância com o pecado, algo impossível para quem tem o Espírito de Deus(Jo.14:17; Rm.8:9), o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus (Fp.2:5), Espírito e sentimento que fazem com que o servo de Deus abomine o pecado (Zc.13:1; Rm.6:2; Hb.12:4; I Jo.3:8).

- O poder político tem sido utilizado para que as pessoas sejam obrigadas a consentir e concordar com o pecado, sejam impedidas de combater contra o pecado. Sob o nome de “tolerância”, de “democracia” e até mesmo de “proteção aos direitos fundamentais da pessoa humana”, inúmeras iniciativas têm procurado forçar as pessoas a aceitar o pecado, a consentir com a sua prática, quando não se está a estimulá-la.

- Assim, por exemplo, recentemente em nosso país, iniciou-se uma campanha para a aprovação do crime de homofobia, criminalizando, na prática, toda e qualquer manifestação contrária ao homossexualismo. Ora, que é isto senão uma demonstração da “perseguição camuflada” contra a Igreja? A Igreja tem a obrigação de dizer ao mundo que a Palavra de Deus condena a prática do homossexualismo voluntário, que esta atitude é, aos olhos de Deus, o ápice da rebeldia do homem contra o seu Criador (Rm.1:26-28). Apesar de ser direito fundamental da pessoa humana a liberdade de manifestação do pensamento, tenta-se impedir a pregação contra o homossexualismo, enquanto que a pregação contra o heterossexualismo continuará sendo livre e ilimitada. Que é isto senão a utilização do poder político para se impedir a pregação da Palavra de Deus, a tarefa da Igreja?

OBS: Recomendamos a leitura do artigo “A nova religião nacional”, do filósofo Olavo de Carvalho, na seção Reflexões do Portal Escola Dominical, a respeito do assunto. Trata-se de um artigo de uma pessoa que não professa a fé cristã mas que mostra, com argúcia e inteligência, de modo secular, como se está diante de uma verdadeira perseguição religiosa, ainda que camuflada.

- Passou-se a considerar que a defesa da Palavra de Deus e de seus valores e princípios, sem qualquer tolerância com o pecado, é uma atitude de “fundamentalismo religioso”. Sob este nome, o inimigo tem alardeado e convencido muitas pessoas que os defensores de uma autêntica vida cristã são tão nocivos e perniciosos quanto os terroristas do chamado “fundamentalismo islâmico”. A utilização, aliás, da mesma palavra (“fundamentalismo”) já faz parte da estratégia do adversário de criar ojeriza e repugnância da sociedade a tudo quanto representar a defesa da Bíblia Sagrada e do seu teor. Vivemos dias em que todo aquele que diz que não há comunhão entre a luz e as trevas e que quem não aceitar a Cristo sofrerá a morte eterna é considerado um elemento “intolerante”, “preconceituoso”, “ignorante” e “indigno de conviver ou ter sucesso na sociedade”. A discriminação contra este “tipo de gente” é evidente e não é considerada atentatória aos direitos humanos, mas uma “atitude civilizada e pós-moderna”. Tem-se, assim, uma evidente perseguição religiosa, ainda que camuflada, mais uma atuação das “portas do inferno”.

- Que deve o servo do Senhor fazer diante de um quadro de perseguição camuflada? Agir como agem os nossos irmãos em Cristo da igreja abertamente perseguida, como agiram os irmãos da igreja primitiva e dos outros períodos da história da igreja. Temos de combater o bom combate ((II Tm.4:7). Apesar de toda a oposição, continuar a proclamar e a viver o que diz a Palavra de Deus, não titubear nem vacilar, mas seguir em frente dizendo que Jesus salva, cura, batiza com o Espírito Santo e leva para o céu. Dizer que pecado é pecado, que Deus ama o pecador, mas abomina o pecado e que há uma solução para o pecado do homem: crer em Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo.1:29).

- Se, por causa da manutenção da fé em Deus e na Sua Palavra, viermos a ser discriminados, ridicularizados e a “perseguição camuflada” tornar-se perseguição aberta, o servo do Senhor deve exultar e se alegrar, porque é grande o galardão nos céus (Mt.5:12), regozijar-se de ter sido julgado digno de padecer afronta pelo nome de Jesus (At.5:41).

- Sabemos que não é fácil uma atitude destas, mas o genuíno e autêntico servo do Senhor tem de ter este sentimento. Como dissemos, Jesus, logo após ter feito a “declaração de Cesaréia”, ensinou aos discípulos que deveria padecer e morrer para cumprir a vontade de Deus e o inimigo, imediatamente, usando a boca de Pedro, procurou criar no Senhor um sentimento de auto-comiseração. O verdadeiro servo do Senhor Jesus não tem pena de si mesmo, não se coloca à frente da vontade de Deus, mas se nega a si próprio e toma a cruz (Mc.8:34; Lc.9:23). Quem não toma a sua cruz e não segue após o Senhor,  quem ama mais a si ou a outrem do que ao Senhor não é digno do Senhor (Mt.10:37,38).

- A pressão exercida pelo mundo sobre cada servo do Senhor para que ele “deixe de ser fanático”, “faça uma trégua com o pecado”, “seja tolerante com o pecado” tem sido intensa, é cada vez maior. Como a perseguição camuflada não se apresenta violenta, não é sanguinária, tem aparência de civilidade, consegue ser muito mais forte do que a perseguição aberta. Quem não se revolta ao ver cenas de incêndio de templos de igrejas, de condenações à morte de pessoas somente por causa da pregação do Evangelho? No entanto, quantos não estão indiferentes e até defendem atitudes de “repressão ao fundamentalismo”, como as que têm sido feitas na atualidade?

- Os “anciãos” dos nossos dias, os governantes têm sido facilmente induzidos pelo adversário de nossas almas a tomar iniciativas simpáticas a movimentos que, embora minoritários na sociedade, têm se organizado eficaz e eficientemente e, por intermédio da propaganda e da mídia, têm conseguido o consentimento da “maioria silenciosa” e, com isso, criado inúmeros obstáculos à pregação do Evangelho. Verdade é que, em muitos casos, têm tido, também, a ajuda de muitos servos do Senhor que, na sua simplicidade e, quiçá, teimosia, têm aberto inúmeras brechas para que o adversário penetre e destrua grandes oportunidades de evangelização, como, por exemplo, nos abusos relacionados com a poluição sonora e visual, que têm permitido o surgimento de legislações que têm sensivelmente prejudicado as igrejas locais.

- A pressão social exercida contra o “fundamentalismo religioso” tem levado muitos servos do Senhor a procurar um “cessar-fogo” com o pecado. Já não são poucos os que, a exemplo dos “lapsi” da época das perseguições romanas, aceitam fazer algum tipo de acordo com o perseguidor, a fim de se livrar dos inconvenientes de ser crente. Assim, conquanto digam servir a Deus, aceitam em consentir com as práticas pecaminosas, não raro também passando a praticar o pecado sob a ilusão de que Deus é compreensivo e bondoso a ponto de os perdoar. Passam a professar um “cristianismo light”, permissivo, extremamente tolerante com o pecado, passando a “se conformar com o mundo”. Passam a defender condutas como o aborto, a eutanásia, o homossexualismo, a união estável, a erotização infantil e tantas outras práticas abomináveis, única e exclusivamente para terem “paz e sossego” na sua “vida religiosa”.

- Tal comportamento, porém, não tem qualquer respaldo bíblico. Muito pelo contrário, a Bíblia Sagrada é clara ao dizer que não há comunhão entre a luz e as trevas (II Co.6:14), até porque foi Deus quem fez esta separação (Gn.1:4). Só teremos comunhão com o Senhor se andarmos na luz, onde Ele está (I Jo.1:7). Quem é de Deus, diz o Senhor Jesus, vem para a luz e deixa as trevas (Jo.3:21), porque em Deus não há trevas nenhumas (I Jo.1:5).

- O apóstolo Paulo diz que somente seremos verdadeiros servos do Senhor se apresentarmos os nossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, não nos conformando com este mundo, para que experimentemos qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm.12:1,2). Não se conformar com o mundo é não tomar a forma deste mundo, é não aceitar a maneira de viver do mundo. Por isso, o cristão jamais pode consentir com a prática do pecado, pois são dignos de morte tanto quem pratica tais coisas, como quem consente com a sua prática (Rm.1:32).

- Diante da “perseguição camuflada”, precisamos lutar contra as hostes espirituais da maldade, revestindo-nos da armadura de Deus, cuja arma de ataque é a espada do Espírito, que é, precisamente, a Palavra de Deus (Ef.6:17) e que tem no escudo da fé a principal arma para se defender dos dardos inflamados do inimigo (Ef.6:16). Somente confiando em Deus e nas Suas promessas, poderemos manter o bom combate contra o pecado, mesmo em meio a esta “perseguição camuflada”, mas crescente.

III – A PERSEGUIÇÃO DAS AUTORIDADES RELIGIOSAS E DOS ESCRIBAS – O PODER RELIGIOSO E INTELECTUAL CONTRA A IGREJA

- Mas, além dos “anciãos”, Jesus disse aos discípulos que haveria de padecer perante os “principais dos sacerdotes”, ou seja, perante as autoridades religiosas. As autoridades religiosas são, também, grandes perseguidoras da Igreja, por incrível que isto possa parecer à primeira vista.

- A “religiosidade” é algo ínsito no homem, mas como o ser humano tem o livre-arbítrio, este sentimento religioso é facilmente desviado em seu intento, deixando de ser uma forma de se religar a Deus para se tornar na exaltação do próprio homem ou, mesmo, na adoração do inimigo de nossas almas. O pecado faz com que o homem abandone a Deus e a Sua verdade e passe a adorar deuses criados conforme a sua imaginação (Rm.1:21-23). Com o tempo, esta idolatria degenerou ainda mais, chegando, mesmo, o homem a defender como “prova de civilização” a total ausência de religião, o chamado “agnosticismo”, quando não o ateísmo explícito, quase sempre acompanhado de um materialismo, que foi, aliás, a tônica e característica da humanidade em boa parte dos séculos XIX e XX.

- No entanto, após a grande decepção humana com o predomínio da ciência arrogante e orgulhosa de si mesma, cujo resultado foi a maior mortandade já conhecida na história da humanidade, no século XX, o homem tem procurado reavivar uma religiosidade, como têm demonstrado os movimentos religiosos surgidos nos últimos cem anos e a própria adoção, notadamente no Ocidente, de filosofias e religiões milenares como o hinduísmo, o budismo e o taoísmo. Sob o influxo do movimento Nova Era, os homens têm se considerado “deuses” e, muitos, até, têm resolvido adorar o próprio diabo, pois o século XX também trouxe, na onda da retomada da espiritualidade, o satanismo organizado e explícito.

- Estas “autoridades religiosas”, obviamente, têm perseguido impiedosamente a Igreja. Quando não distorcem as Escrituras, com suas heresias e falsas doutrinas, atacando os crentes fiéis que se mantêm nos ensinos da Bíblia Sagrada (Bíblia esta que tem sido alvo de todo tipo de ataque dos “eruditos” e dos “iluminados espirituais”), estas “autoridades religiosas” passam a confundir as pessoas, notadamente os crentes não familiarizados com a Palavra de Deus, pregando uma auto-suficiência do homem, uma salvação por conta própria. Não cansam de dizer que “Jesus é coisa do passado”, que “já foi o tempo do Cristianismo” e que é preciso surgir um “novo sentimento religioso”, em que as “guerras religiosas e a intolerância do passado cedam lugar à harmonia, à paz, à unidade religiosa”.

- As “autoridades religiosas” estão fechando o cerco contra a Igreja, exigindo, cada vez mais, um “sincretismo religioso”, um “ecumenismo”, a “união de todas as religiões”. As “autoridades religiosas” passam a exigir de todos os homens a aceitação de que “todos os caminhos levam a Deus” e de que “pregar que só Jesus salva é intolerância e a razão de ser de todas as guerras e mortes ocorridas em nome da religião”. Não resta dúvida de que muito se matou em nome de Deus, mas que isto se deu única e exclusivamente por causa das “autoridades religiosas”, que, aliás, em nome de Deus, mataram o próprio Deus feito homem.

- Não são poucos os servos do Senhor que têm aceitado esta “convivência fraterna” com as “autoridades religiosas”, esquecendo-se de que a verdade não pode compactuar com a mentira. As “autoridades religiosas” têm conseguido o seu intento, obtendo uma “uniformização” dos discursos, das práticas e das crenças religiosas. As liturgias, notadamente entre os que cristãos se dizem ser, estão cada vez mais parecidas, abundando a religiosidade, o formalismo e o entretenimento e faltando a Palavra de Deus, a pregação da verdade e a transformação de vidas. As “autoridades religiosas” dos nossos dias têm conseguido calar muitos discípulos de Jesus Cristo que, em vez de procurarem obedecer a Deus, já têm deixado de divulgar a doutrina, como fizeram os apóstolos em Jerusalém (At.5:28).

- Dentre as “autoridades religiosas”, destacamos as responsáveis pela “perseguição camuflada”, que são os “falsos doutores”, que introduzem, encobertamente, heresias de perdição no meio do povo de Deus (II Pe.2:1). Estes, camuflados, pressionarão muitos a seguir as suas dissoluções (II Pe.2:2), blasfemando o caminho da verdade, gerando descrédito, morte e perdição. Devemos ter o mesmo discernimento espiritual dos crentes da igreja de Éfeso (Ap.2:2), para não sermos levados de roldão para o mesmo destino de perdição que os aguarda (II Pe.2:3). Muitos são os que são discriminados, perseguidos e até expulsos de igrejas locais, porque “autoridades religiosas” que ali estão são “falsos doutores”.

- Mas Jesus disse, também, que padeceria perante os escribas, que eram os estudiosos das Escrituras, aqueles que tinham conhecimento da Palavra de Deus nos dias do Seu ministério terreno. Os escribas aqui representam os “intelectuais”, os “sábios e instruídos” que, no entanto, não têm acesso, apesar de toda sua ciência, à revelação divina (Mt.11:25). Com efeito, toda a ciência humana, embora seja boa e desejável, não tem como se comparar à doutrina, ao ensino de Deus ao homem, não passando de “esterco” (Fp.3:8), ou seja, como um elemento a ajudar na fortificação do saber proveniente de Deus, que, porém, existe e subsiste independentemente deste conhecer humano.

- Os “intelectuais”, os “sábios e instruídos” sempre foram elementos utilizados pelo inimigo para enfrentar o povo de Deus. No Egito, vemos como a ciência foi utilizada para enfrentar Israel, através dos magos (Ex.7:22, v.g.), que foram, durante algum tempo, o motivo do endurecimento do coração de Faraó.

OBS: A propósito, não foi por acaso que Deus permitiu que Moisés fosse instruído em toda a ciência do Egito (At.7:22), pois somente alguém dotado de profundo conhecimento da ciência teria condições de enfrentar eficazmente a oposição científica.

- A Bíblia, mesmo, fala da “falsamente chamada ciência”, cujo objetivo é tão somente se opor à Palavra de Deus (I Tm.6:20), falsa ciência, aliás, que foi objeto de estudo das duas lições anteriores. Estes “intelectuais” têm produzido, também, uma grande perseguição à Igreja, seja na organização do sistema educacional, onde tentam incutir seus princípios e valores contrários à sã doutrina na mente das crianças, adolescentes e jovens, seja na própria justificativa e estímulo às práticas pecaminosas. A “falsa ciência”, a “ciência do Egito” continua a querer mostrar que não há diferença alguma entre o viver santo e o viver pecaminoso, que as práticas pecaminosas não representam mal algum à sociedade, mas, antes, são verdadeiras provas da “evolução”, do “progresso” e da “civilização” da humanidade.

- Não faltam, em os nossos dias, filósofos, cientistas, sumidades intelectuais que têm como única meta a “desmistificação” da Bíblia Sagrada, o “sepultamento” dos princípios e valores cristãos. Não são poucos sequer os teólogos que, sob o influxo do “liberalismo teológico”, são os primeiros a descrer nas Escrituras e no próprio Deus por elas revelado! Quanta blasfêmia tem saído de seminários e centros de estudos teológicos nos tempos trabalhosos em que vivemos! A “falsa teologia” também está crescendo e convencendo a muitos a abandonar o caminho da verdade. Mas não sejamos como aqueles que correm atrás destes “falsos doutores” para terem justificativa de suas concupiscências (II Tm.4:3,4), mas continuemos a olhar para Jesus, o autor e consumador da nossa fé (Hb.12:2). Em vez dos aplausos e do “reconhecimento intelectual”, prefiramos antes ser maltratados com o povo de Deus do que, por um pouco de tempo, ter o gozo do pecado, tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito (Hb.11:25,26).

- A perseguição intelectual tem sido terrível, não sendo poucos os servos do Senhor que, quando não conseguem ser alijados das universidades (e até mesmo dos seminários teológicos…), são duramente discriminados e têm sua produção intelectual marginalizada e ridicularizada pela comunidade científica. Enquanto isto, na base do sistema educacional, há uma luta incessante para retirar toda e qualquer referência à sã doutrina nas aulas, com adoção de métodos e sistemas pedagógicos que privilegiam a “tolerância máxima com o pecado”, bem como a idéia de que há uma oposição absoluta entre religião e fé. Os princípios e valores cristãos não podem mais ser ensinados, sendo seu ensino ou menção considerado como “proselitismo”, algo inadmissível numa sociedade que se quer sincrética ou sem qualquer religiosidade.

- Contra esta perseguição, devem os servos do Senhor empunhar a espada do Espírito, demonstrar a fragilidade da “falsamente chamada ciência”, esforçando-se para que, assim como Moisés, com conhecimento suficiente, a começar das Escrituras Sagradas, possamos comprovar o erro destes “falsos cientistas” e, como fez o apóstolo Paulo, conquistar alguns destes “sábios e instruídos” para o reino de Deus (At.17:32-34).

IV – A ASTÚCIA DO ADVERSÁRIO CONTRA A IGREJA – AS “PROPOSTAS ESPERTAS” DE SATANÁS PARA DESVIAR A IGREJA DA VIDA ETERNA

- Como dissemos antes, não é apenas pela perseguição que se manifestam as “portas do inferno”, mas também pela “astúcia”, pela “preparação esperta”, como vimos supra. Nem sempre o inimigo vem bramando como um leão, buscando a quem possa tragar mas alertando aqueles que escaparem de seu ataque, mas, e cada vez mais, aparece ele sorrateiro, deslizando como uma serpente, pegando a todos os desprevenidos que, depois de seduzidos por ela, não têm como resistir ao seu bote fatal.

- O inimigo continua a ser “a antiga serpente, que engana todo o mundo” (Ap.12:9) e, por isso, quando mente, faz aquilo que está conforme a sua natureza (Jo.8:44). Por isso, uma de suas armas prediletas é o engano, a mentira, a ilusão, fazendo com que o homem acredite em suas palavras, a fim de desviá-lo da verdade, fazendo-o crer em fábulas, ou seja, em “histórias da carochinha” (II Tm.4:4).

- Alguns poderão dizer que já falamos desta atitude do inimigo, ao abordarmos a “perseguição camuflada”, mas não é o caso. A “perseguição camuflada” é uma “perseguição”, é um ato de seguir até o fim, de ir atrás de alguém, mas que se encontra, enganosamente, sob a aparência da normalidade. É uma perseguição, mas que se esconde sob a roupagem de uma atitude amistosa e não contrária ao cristão. Tem-se engano mas na forma como a perseguição se apresenta.

- A astúcia de que se está a falar é algo muito mais sutil. Não se trata de uma perseguição que não o é na aparência, mas de uma atitude que se apresenta como inocente, gentil, pacífica, valiosa, mas que é, no fundo, uma mentira do inimigo que procura, assim, desviar o cristão dos seus objetivos, de sua missão enquanto servo do Senhor. Não se trata de uma oposição a uma atitude do crente fiel, mas de uma aproximação amistosa para que o crente se desvie dos retos caminhos do Senhor.

- O adversário não perseguiu o primeiro casal. No relato da queda do homem, vemo-lo se apresentando à mulher e iniciando um diálogo com ela, de uma forma aparentemente inocente e inócua. Perguntar à mulher o que Deus havia dito e apresentando uma falsa ordem como a que conhecia foi o ponto de partida para dizer à mulher que o que Deus dissera não era verdade e que, se o casal comesse o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, em vez de morrer, seria igual a Deus.

- A astúcia, como se vê, está relacionada com uma atitude de aproximação, com um diálogo, com uma proposta de companheirismo e de bem-estar ao homem, mas que tem por objetivo o distanciamento do homem da vontade de Deus, o lançamento do homem no campo da dúvida e no descrédito da Palavra de Deus, a fim de levá-lo à desobediência e à incredulidade.

- A aproximação com o inimigo é o primeiro passo para a queda. O adversário luta incessantemente para dialogar com o servo do Senhor e nós devemos ter o mesmo discernimento que teve o Senhor Jesus ainda em Cesaréia. O texto sagrado mostra-nos que Pedro tomou Jesus à parte, quis ter um diálogo particular com o Senhor. Usado pelo diabo, usava a estratégia da aproximação, do estabelecimento de uma intimidade com o Senhor, a fim de impedir que Ele cumprisse a vontade do Pai.

- O diabo procurará, sempre, “um particular com o crente”. Conhecedor das coisas que são dos homens, o inimigo bem sabe quais são nossos pontos fracos, nossos “calcanhares-de-Aquiles”, nossos desejos mais profundos, confessados na solidão de nossas orações, de nossos pensamentos em voz alta. O adversário não é onisciente, nem tem condições de saber o que pensamos, mas tudo o que manifestamos, ainda que na solidão, chega aos seus ouvidos (até porque o maior sistema de espionagem que existe é o de Satanás, que tem a seu dispor milhões e milhões de mensageiros). Disto sabendo, o diabo procura, sempre, ter “um particular”, tomar-nos à parte para, então, assim como fez com a mulher (que estava solitária neste instante, quando deveria estar com seu marido), iniciar um diálogo, que tem grande probabilidade de levar à queda.

- Neste ponto, vemos com grande preocupação a tendência dos dias trabalhosos de os crentes se isolarem, de partir para um “individualismo espiritual”, atitude demasiadamente apropriada para as “portas do inferno”. “Não é bom que o homem esteja só”, disse o Senhor (Gn.2:18a) e, para tanto, resolveu edificar a Igreja, que é “o conjunto dos reunidos para fora”, decidindo que, neste grupo de pessoas , é que daria o aperfeiçoamento dos santos, o crescimento espiritual (Ef.4:11-16), inclusive por intermédio do exercício dos dons espirituais (I Co.14).

- Os tempos trabalhosos em que vivemos, onde são cada vez mais freqüentes os escândalos, as decepções, as traições, os fracassos nos relacionamentos interpessoais, têm levado muitos a achar que podem servir a Deus de forma solitária, num suposto contacto direto com Deus, como se isto fosse possível, como se este fosse o modelo bíblico. Somente amo a Deus, se amo o próximo e, se não amo o próximo, o amor do Pai não está em mim (I Jo.2:9,10; 3:16-18).

- Aceitar o “individualismo espiritual” é aceitar uma “proposta esperta” do inimigo, é se deixar ser tomado à parte pelo adversário e iniciar um diálogo que pode levar ao fracasso espiritual, ao desvio da verdade. Precisamos ter prazer na lei do Senhor, nela meditar de dia e de noite (Sl.1:2), para que evitemos esta oferta, fruto da astúcia do inimigo, uma das “portas do inferno” que tem conseguido derrubar a muitos. Como diz o proverbista, por duas vezes, “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” (Pv.22:3; 27:12).

- Mas, além de tomar Jesus à parte, Pedro, usado pelo inimigo, também procurou repreender Jesus. Umas das formas de manifestação desta sutileza maligna é a sua irreverência, o seu desrespeito para com a figura do Senhor Jesus. O adversário odeia a Cristo e tudo procura fazer para menosprezá-lO, desprezá-lO, diminuí-lO. Na conversa do inimigo, sempre perceberemos o intento de difamar, apequenar o Senhor Jesus. Aqui, Pedro, ainda sob o impacto da revelação que tivera do Pai, deixou-se levar pela vaidade e se acha na condição de “repreender” a Jesus. A palavra grega é “epitimaó” (????????), cujo significado é “censurar”, “advertir”, “mandar”, “admoestar”.

- Talvez envaidecido pela grande experiência espiritual que desfrutara, Pedro tenha extrapolado e se achado no direito de “advertir”, de “censurar”, de “mandar” em Jesus. Este é o grande perigo desta astúcia do inimigo, fazer-nos crer que podemos querer corrigir o Senhor Jesus, orientá-lO, dizer o que Ele deve fazer. Muitos hoje caíram nesta astúcia e tratam o Senhor Jesus como um “empregado qualificado”. Não podem mais coisa alguma ao Senhor, mas “decretam”, “declaram”, “determinam”. Trocaram a fé em Jesus, a confiança na Sua Palavra pela “determinação”, pela obrigação que tem o Senhor Jesus de atender aos seus caprichos, desejos e vontades. Deixaram-se enganar e seduzir pela “antiga serpente”.

- Quem somos nós para exigir algo do Senhor Jesus? Para querer ensinar-Lhe? Para dizer o que Ele deve fazer? Afastemo-nos deste comportamento, destes ensinos sem qualquer respaldo bíblico e que tão somente se constituem em mais uma “proposta esperta” do inimigo para nos iludir. Quando queremos repreender o Senhor Jesus, estamos deixando de considerá-lO como Senhor, negamos o Seu senhorio sobre nós e, desta maneira, não poderemos desfrutar da eternidade ao Seu lado. Ao negarmos o senhorio de Cristo, fazemo-nos rebeldes contra o Senhor e o pecado de rebelião é como o pecado de feitiçaria e o porfiar (isto é, o lutar contra Deus e Sua vontade) como iniqüidade e idolatria (I Sm.15:23) e, pela falta de um, por dois motivos ficaremos do lado de fora da cidade santa (Ap.22:15).

- Também é “repreender a Jesus” o ataque às Escrituras Sagradas. Muitos são os servos do Senhor que, na atualidade, estão se deixando seduzir pela astúcia do inimigo e crendo em suas mentiras, deixando de aceitar trechos da Bíblia Sagrada, sob a justificativa de que são “textos não inspirados”, “textos válidos tão somente para a cultura daquele tempo”,
”textos mal traduzidos”, “textos adulterados” e assim por diante. A Bíblia Sagrada é a fiel testemunha de Cristo (Jo.5:39), cujo teor permanece para sempre, jamais passará, ainda que os céus e a terra passem (Mt.24:35; Mc.13:31; I Pe.1:25).

- Muitos são os “crentes” destes tempos trabalhosos que têm aceitado “interpretações”, “visões”, “revelações”, “profecias” que escamoteiam a Palavra de Deus, implícita ou explicitamente. Movimentos surgem todos os dias aceitando apenas este ou aquele livro da Bíblia, ou, então, põem no mesmo nível doutrinas de homens (e, muitas vezes, doutrinas de demônios) e as Escrituras, que, em confronto com tais doutrinas, sempre levam desvantagem. São pessoas que “repreendem Jesus”, que já ingressaram pelo caminho da astúcia do inimigo e se encontram enganados, dando ouvido a “espíritos enganadores” (I Tm.4:1).

- A astúcia do inimigo também se manifesta através do estímulo e incentivo ao sentimento de auto-compaixão, de auto-piedade. “Senhor, tem compaixão de Ti; de modo nenhum Te acontecerá isso” (Mt.16:22). Como vimos supra, para sermos servos de Deus, é necessário que renunciemos a nós mesmos. Ora, ao começarmos a nos preocupar conosco mesmos, a termos pena de nós mesmos, dó de nossa vida, a nos considerarmos algo extremamente valioso que mereça ser preservado, estamos no sentido contrário da Palavra de Deus, “porque qualquer que quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de Mim, perder a sua vida a salvará.”(Lc.9:24).

- A salvação exige a renúncia de nós mesmos, o abandono do nosso “eu”. Mas os dias em que vivemos, como já se viu neste trimestre, são os dias do egoísmo, do amor de si mesmo. O inimigo incutiu na mente dos incrédulos este amor narcisista, egoístico e tem apresentado a proposta da auto-compaixão para os servos de Deus e muitos têm perdido as suas vidas porque procuram salvá-la, ou seja, na busca da própria satisfação, na procura do contentamento próprio, no “aproveitar a vida”, acabam perdendo a eternidade.

- Muitos estão a viver como nos dias do profeta Isaías, em que o povo só buscava a própria satisfação e, com arrogância, exclamava: “…comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”(Is.22:13 “in fine”), selando a própria sentença de condenação. Entretanto, não é a morte o que nos oferece o Senhor, mas vida, e vida com abundância (Jo.10:10b). O adversário procura, dentro de sua “proposta esperta”, fazer que comamos e bebamos, sem saber que neste comer e beber fora da vontade do Senhor, estaremos a selar a nossa própria morte.

- Não estamos aqui para cumprir a nossa vontade, mas a vontade do Senhor. Se somos o corpo de Cristo, devemos, como Ele, viver para cumprir a vontade do Pai (Hb.10:5,9). O corpo de Cristo foi preparado para que fizesse a vontade de Deus e é a Igreja este corpo sobre a face da Terra na atualidade.

- A astúcia do inimigo também se manifesta por intermédio da persuasão racional. Como disse o Senhor, o inimigo conhece as coisas que são dos homens e, entre estas coisas, está a razão humana, a lógica imperfeita do ser humano. Deus fez o homem com capacidade de pensar e criar coisas, tanto que permitiu ao homem dar nome aos animais (Gn.2:19,20). Entretanto, depois que pecou, o homem se desviou da retidão original e utilizou a sua capacidade intelectual para se distanciar do Senhor (Ec.7:29). Por isso, como vimos supra, os “sábios e instruídos” são incapazes de entender as coisas de Deus, pois só o homem espiritual pode fazê-lo (I Co.2:11-16).

- O resultado disto é que a razão humana, a lógica do homem não tem condições de entender a revelação divina e, obscurecida como está a mente dos incrédulos (II Co.4:4), a razão é facilmente manipulada pelo adversário de nossas almas, que, assim, confunde os homens que, a partir de sua lógica, crê nas mentiras e ilusões trazidas pelo inimigo. Por isso, a pregação do Evangelho é, aos olhos do homem natural, uma “loucura” (I Co.1:21-23), embora seja a verdadeira sabedoria, a sabedoria que vem do alto (Tg.3:17).

- O inimigo busca, então, levar o homem, para desviá-lo da verdade, para o campo da lógica humana, da imperfeita capacidade humana de raciocinar, porque, como é conhecedor das coisas dos homens, pode facilmente manipular o ser humano e fazê-lo crer na mentira, “justificada racionalmente”. Assim tem construído a “falsamente chamada ciência” e também tem conseguido fazer muitos servos do Senhor fracassar.

- Quando aceitamos a proposta esperta da “lógica humana”, corremos o risco de nos desviar dos caminhos do Senhor. Para os incrédulos, o Evangelho é uma contradição, é um absurdo, algo que não tem como subsistir. Na mentalidade romana, impregnada da cultura racional helenística, o Evangelho era um contra-senso, o que é bem expresso na expressão do governador romano Festo ao rei Agripa, que dizia que a discussão a respeito da pregação de Paulo eram “…questões acerca da sua superstição, e de um tal Jesus, defunto, que Paulo afirmava viver” (At.25:19). Para Festo, o Evangelho, que Paulo corretamente considerava “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm.1:16), era tão somente um distúrbio mental, um delírio produzido pelo estudo excessivo (At.26:14).

- Usado pelo inimigo, Pedro não teve dúvidas em dizer a Cristo que “de modo nenhum te acontecerá isso”. Pelo lado da lógica humana, nada havia de mais certo. Jesus dissera que o Messias, o Rei de Israel, iria sofrer nas mãos dos anciãos, dos principais dos sacerdotes e dos escribas. Ora, como poderia a cúpula da sociedade judaica, que aguardava o Messias,  rejeitá-lo? Como poderia o “Filho de Deus vivo”, revelado há momentos atrás, pelo próprio Pai, falar em sofrimento e nas mãos de homens considerados santos da sociedade do povo eleito? Era um contra-senso, um absurdo que não fazia sentido algum!

- Além do mais, como poderia o “Filho de Deus vivo” morrer, como Jesus estava afirmando? Deus, por um acaso, poderia morrer? Outro absurdo! Mas, não bastasse isso, falava-se em uma ressurreição imediata, quando todos ensinavam a ressurreição do último dia e, a propósito, a ressurreição, por ser contrária aos princípios filosóficos então predominantes, era até mesmo rechaçada por muitos, como os saduceus. Como, então, não entender que tudo o que Jesus dissera não fazia sentido algum e deveria ser repelido?

- Esta “certeza” advinda da lógica humana tem sido uma poderosa arma usada pelo inimigo para retirar muitos do caminho da salvação. Nestes tempos trabalhosos em que vivemos, devemos ser vigilantes e não permitir que a “dona razão” venha a sufocar a nossa fé, venha a nos fazer perder a direção do Espírito Santo. A razão deve ser utilizada pelo salvo, pois não somos robôs, não somos irracionais, mas temos de dirigir a nossa mente segundo o Espírito de Deus, pois temos a mente de Cristo.

- O cristão jamais deve abrir mão do uso da razão. Seu culto a Deus é racional (Rm.12:1) e está ele a pregar, como o apóstolo Paulo, palavras de verdade e de um são juízo (At.26:25). Entretanto, não pode se deixar enganar pelas imperfeições das “muitas invenções humanas”, pela cegueira mental dos incrédulos. A razão sem a fé torna-se uma potente arma das “portas do inferno” para selar a nossa perdição. Não devemos nos surpreender, pois, com os resultados do “liberalismo teológico” que têm sido catastróficos, pois, a partir do instante em que o estudioso da Bíblia deixa a fé, a direção do Espírito Santo para tentar entender a Palavra tão somente com a lógica humana, perde-se e chega à mesma conclusão ilusória de Pedro: “de modo algum acontecerá isso”. A lógica humana gera a descrença, a incredulidade. Tomemos cuidado!

- Mas o texto sagrado que estamos a analisar também nos ensina como devemos agir diante da astúcia do inimigo, diante de sua “proposta esperta”, que é uma das “portas do inferno”. Devemos ter discernimento espiritual e, com a autoridade do nome de Jesus, repreender o inimigo. “Para trás de Mim, Satanás, que Me serves de escândalo, porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens” (Mt.16:23) foi a resposta de Jesus à astúcia do inimigo.

- Não há como vencermos a astúcia do inimigo a não ser através do discernimento espiritual e, para que o tenhamos, é necessário termos o Espírito Santo em nós, ou seja, nascermos de novo e mantermos uma vida de santificação. Sem que o Espírito Santo esteja em nós, jamais poderemos vencer o adversário, pois “…maior é o que está em vós do que o que está no mundo.” (I Jo.4:4 “in fine”).

- Pedro tinha acabado de ter uma revelação do Pai, por isso a lógica humana levaria a considerar que suas palavras ditas ao Senhor eram a continuação daquela revelação. Se Jesus fosse guiado pela lógica humana, teria sido enganado. Mas Jesus, que havia sido ungido pelo Espírito Santo, mantinha comunhão com Deus, Deus era com Ele e, por isso, soube bem distinguir a voz de Deus da voz do inimigo.

- Quantos não têm sido iludidos pelo adversário porque não têm comunhão com Deus, porque não conhecem a voz do Senhor. “As Minhas ovelhas ouvem a minha voz, e Eu as conheço, e elas Me seguem”(Jo.10:27), disse o Senhor. Podemos dizer que somos ovelhas do Senhor ou temos sido iludidos pelos Pedros que, embora vasos de Deus no passado, hoje se deixam enganar pelo adversário? Precisamos ter a mente de Cristo se quisermos ter vantagem sobre as “portas do inferno”.

- Para vencermos a astúcia do inimigo, precisamos nos colocar à frente do adversário. “Para trás de Mim, Satanás”, disse o Senhor Jesus. O diabo pôs-se à Sua frente, para impedir a Sua passagem, para atrapalhar a Sua visão, para retirar o foco do cumprimento da vontade de Deus para a auto-piedade, para a auto-compaixão. Onde está a atenção das nossas vidas? Para realizar a vontade de Deus ou para cuidar de nós e dos nossos? Se temos o nosso olhar desviado pelo inimigo, estamos em densas trevas, pois, como disse o Senhor no sermão do monte, “a candeia do corpo são os olhos, de sorte que se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” (Mt.6:22,23).

- Para onde estamos olhando? Para as campinas verdejantes e promissoras de ganhos materiais e passageiros de Sodoma, como Ló, ou para as promessas de Deus, como Abraão? Onde estão os nossos pensamentos: nas coisas de cima ou nas coisas da Terra? Onde está o nosso coração: nos tesouros desta vida ou nos tesouros das mansões celestiais? “Para trás de Mim, Satanás”, disse o Senhor e devemos ser Seus imitadores (I Co.11:1).

- Precisamos ter uma fé inabalável, que cresça cada vez mais. Vivemos dias muito difíceis e não podemos nos contentar em estacionar na vida espiritual. Precisamos andar de fé em fé, pois a justiça de Deus é movida pela fé do princípio ao fim, somos aceitos por Deus por causa da fé (Rm.1:17 NVI, NTLH). Nesta fé, que não é cega nem instintiva, mas que tem a colaboração da razão, perfeitamente sabemos que o inimigo não é capaz de compreender a dimensão da fé, embora bem entenda a natureza pecaminosa do homem e saiba, como ninguém, manipular a sua mente. Entretanto, se temos fé, não nos impressionaremos com os argumentos falaciosos da astúcia do maligno e prosseguiremos o bom combate, guardando a fé até o instante de terminarmos a nossa carreira. A vitória que vence o mundo é a nossa fé (I Jo.5:4). A fé permite que olhemos sempre para Jesus, suportemos a afronta e aguardemos o gozo que nos está preparado. Pela fé, sabemos que as portas do inferno, embora tenham vantagem, embora estejam a oprimir cada vez o povo de Deus, não hão de prevalecer. Brevemente, seremos glorificados e, num abrir e fechar de olhos, estaremos para sempre com o Senhor. Aleluia! Falta um poucochinho de tempo, e o que há de vir, virá, e não tardará. Por isso, como não somos daqueles que não se retiram para a perdição, mas daqueles que crêem para a conservação da alma, não rejeitemos a fé em Deus, que tem grande e avultado galardão e façamos a vontade do Senhor para que alcancemos a promessa (Hb.10:35-39). As portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja! Amém!

Colaboração para o Portal EscolaDominical: Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco.

2 Comentários

  1. luiz renato campese disse:
    como eu posso copiar um estudo deste site pois não estaconcluindo a pagina
  2. Querido Pastor e Professor Caramuru, gostaria de saber si, posso, usar um exemplo que a biblia ilumina nos, oferece, quando apresentão, um determinado lugar (Foto), em que as pessoas adoravam, um suposto deus, e sacrificavam animais e pessoas neste lugar, chamam de porta do inferno! por favor me informe! grato! um ex-aluno

    do curso de teologgia, João Batista do Bélem.

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