O caráter de Cristo – 1


 O CARÁTER DE CRISTO

 Dr. Caramuru Afonso

 Fonte: www.escoladominical.com.br

Jesus é o exemplo cujas pisadas devemos seguir.

INTRODUÇÃO

 Chegamos ao término deste trimestre letivo, em que, através da análise de algumas biografias de personagens bíblicas, procuramos melhorar os nossos caminhos diante do Senhor.

 - A última lição é dedicada a uma sucinta análise do caráter de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que, embora seja Deus, também Se fez homem, enquanto ser humano teve um caráter, caráter que deve ser imitado pelos que nEle crêem, pois, como ensinou o apóstolo Paulo, devemos imitar o Senhor (I Co.11:1).

 I – O CARÁTER DE CRISTO – O EXEMPLO QUE DEUS NOS DEIXOU PARA NOSSA SALVAÇÃO

 - Ao planejar, na eternidade passada, a salvação do homem, Deus decidiu que, para que o homem fosse salvo, necessário seria que a Divindade Se humanizasse, pois não haveria como o homem se salvar por seus próprios esforços(Rm.3:10). Indispensável seria que Deus Se fizesse homem, para que, enquanto homem, pudesse não só vencer o pecado, mostrando ser isto possível, como também se pagasse o preço do pecado, mediante a morte sem culpa.

 - Mas, além de Se humanizar para pagar o preço do pecado, Deus também decidiu que deveria viver como homem para que não só mostrasse ser possível a vitória sobre o pecado, mas para, também, nos mostrar como isto se deveria fazer. Deus, ao Se humanizar, deixou-nos o exemplo, o padrão pelo qual conseguiríamos, em Seu nome, vencer o mal e alcançar a vida eterna por meio dEle.

 - A vinda de Jesus ao mundo, portanto, também teve o objetivo de nos deixar o exemplo, exemplo este que foi chamado de “Caminho”, pois é a jornada de Cristo debaixo do sol que devemos imitar para que, assim como Ele chegou à glória vencedor, também lá possamos chegar um dia, dia este que está tão próximo. Não é outro o sentido que Pedro nos dá a respeito da vida de Cristo, ao afirmar que ‘…Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as Suas pisadas” (I Pe.2:21).

 - Também não é por outro motivo que o próprio Senhor Jesus Se intitulou como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo.14:6a). ‘Caminho” não significa tão somente acesso, mas, também, um modelo, uma padrão a ser seguido, uma continuidade de passos e de atitudes que levam a um determinado lugar. Jesus é o Caminho, porque, através da Sua vida, deixou-nos o exemplo a ser seguido, o modo de vida que nos conduz à glória eterna com Ele e as demais Pessoas divinas.

 - Assim, quando falamos do “caráter de Cristo”, estamos a falar de todas as qualidades demonstradas e apresentadas pelo Senhor Jesus enquanto esteve entre nós, qualidades estas que devem estar presentes em todos aqueles que se dizem filhos de Deus, que se dizem herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (Rm.8:17). Se somos co-herdeiros de Cristo e filhos de Deus é porque participamos da mesma natureza do Senhor (II Pe.1:4) e, se temos a mesma natureza, estamos ligados à videira verdadeira (Jo.15:4), temos de produzir o mesmo fruto produzido por Jesus.

 - O próprio Senhor Jesus disse que conheceríamos quem é Seu servo e quem não o é pelos frutos (Mt.7:20). A diferença está no interior (Mt.7:15), mas este interior se demonstra exteriormente através das atitudes. Portanto, é pela análise do comportamento de alguém que chegaremos a verificar se ele é, ou não, um genuíno e autêntico servo do Senhor, se ele é um “cristão”, pois a palavra “cristão” tem como significado “parecido com Cristo”, “semelhante a Cristo” e foi dada aos servos do Senhor, pela vez primeira, em Antioquia, cidade onde Jesus nunca esteve (At.11:26). Ali, após um ano de estudos dos servos de Deus com o apóstolo Paulo, diante das atitudes e ações que passaram a ser praticados pelos integrantes daquela igreja, numa comparação entre suas ações e as ações de Jesus, divulgadas por meio da pregação do Evangelho, chegaram os incrédulos à conclusão de que aquelas pessoas viviam assim como vivera Jesus e, por isso, eram “parecidos com Cristo”, “semelhantes a Cristo”, i.e., “cristãos”. Será que se as pessoas descobrirem que “cristão” é alguém muito parecido com Cristo, irá nos chamar de “cristão”?

- Apresentar o “caráter cristão” é, portanto, algo indispensável na vida de quem serve a Deus. O próprio Senhor Jesus afirmou que aquele que crê nEle é transformado, passa da morte para a vida (Jo.5:24), das trevas para a luz (Jo.3:21). Quando a pessoa aceita a Cristo como seu Senhor e Salvador, nasce de novo (Jo.3:3), torna-se uma nova criatura (I Co.5:17; Gl.6:15), tem completa mudança de suas práticas e atitudes, pois o “homem velho” é despojado, dando lugar ao “homem novo” (Ef.4:22-24; Cl.3:8-10).

 - Jesus viveu entre nós também para nos deixar o exemplo, para que, na Sua Palavra, soubéssemos como Ele Se comportou diante das dificuldades e vicissitudes da vida debaixo do sol, a fim de que pudéssemos saber como proceder. Jesus, como diz o escritor aos hebreus, participou da carne e do sangue, para que pudesse expiar os pecados do povo e para nos poder socorrer (Hb.2:17,18). Tornou-se nosso irmão e, assim, se somos também irmãos dEle, devemos demonstrar ter a mesma filiação, o mesmo caráter, até porque, como afirmou o próprio Senhor, “toda a vara em Mim, que não dá fruto, a tira e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” (Jo.15:2) e “se alguém não estiver em Mim, será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo e ardem” (Jo.15:6).

 - Jesus, mesmo, primeiro tomou atitudes, praticou ações para depois, então, ensiná-las aos Seus discípulos, como nos deixa claro o evangelista Lucas no intróito do livro de Atos dos Apóstolos (At.1:1). Jesus, primeiro, começou a fazer e, em tendo feito, ensinou, com o exemplo, sermões e parábolas. Destarte, para que saibamos qual o caráter de Cristo, basta que analisemos o Seu ensino, que começa com o Seu exemplo.

 - Como já tivemos ocasião de dizer, no intróito deste trimestre letivo, o sermão de Jesus que sintetiza os ensinos do Senhor a respeito do caráter é o sermão do monte, mais precisamente, o sermão das bem-aventuranças, onde o Senhor Jesus ensina os Seus discípulos a respeito de quais são as qualidades que devem ostentar aqueles que são mais do que felizes, ou seja, os Seus servos, aqueles que, por terem crido nEle, desfrutarão da vida eterna.

 - Neste sermão, Jesus mostra como deve ser o Seu discípulo e, como Lucas nos ensinou, tudo o que o Senhor ensinou, Ele também o fez. Deste modo, se quisermos verificar qual é o caráter do Senhor Jesus, basta fazermos uma comparação entre o que disse ser bem-aventurança no sermão e o que Ele viveu enquanto esteve entre nós. Será este o curso de nosso estudo complementar. Que, ao término deste passeio entre os ensinos e os atos do Senhor, possamos repetir aquela intrigante pergunta do escritor norte-americano Charles Sheldon (1857-1946) e, antes de fazermos qualquer coisa, possamos nos indagar: “Em seus passos, que faria Jesus?”

 II – JESUS E AS QUALIDADES DO CARÁTER CRISTÃO ATINENTES AO RELACIONAMENTO COM DEUS

 - Como já tivemos ocasião de observar na primeira lição deste trimestre, cada bem-aventurança do sermão do monte corresponde a uma das qualidades do fruto do Espírito na descrição feita pelo apóstolo Paulo em Gl.5:22. Desta maneira, vemos que o salvo tem restabelecido o propósito divino para o homem, passando a frutificar (Gn.1:28) e uma frutificação abundante e permanente (Mt.13:23; Jo.15:16). Assim, o caráter de Cristo apresenta estas mesmas qualidades, pois o objetivo do discípulo é imitá-lO (I Co.11:1) e chegar a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef.4:13).

 - Estas qualidades do fruto do Espírito, que correspondem a cada uma das bem-aventuranças do intróito do sermão do monte, são, normalmente, divididas em três grupos, com três qualidades e/ou bem-aventuranças cada uma, num entrelaçamento com os dois grandes mandamentos mencionados pelo Senhor (Mt.22:37-40), a saber:

 a) qualidades atinentes ao relacionamento com Deus (1º grande mandamento): amor(bem-aventurança da humildade de espírito), gozo(bem-aventurança dos que choram) e paz (bem-aventurança dos pacificadores).

 b) qualidades atinentes ao relacionamento com o próximo (primeira parte do 2º grande mandamento): benignidade (bem-aventurança dos limpos de coração), bondade (bem-aventurança dos misericordiosos) e mansidão (bem-aventurança dos mansos).

 c) qualidades atinentes ao relacionamento consigo mesmo (segunda parte do 2º grande mandamento): longanimidade (bem-aventurança dos perseguidos por causa da justiça), fé (bem-aventurança dos injuriados e perseguidos) e temperança (bem-aventurança dos que têm fome e sede de justiça).

 - A primeira mudança que tem de ocorrer no caráter do que aceita a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador é o do seu relacionamento com Deus. Nascer de novo, passar da morte para a vida é voltar a ter comunhão com Deus, uma vez que o que fazia separação entre Deus e o homem, o pecado (Is.59:2; Jr.5:25), foi tirado pelo Cordeiro de Deus (Jo.1:29). É por este motivo que Jesus nos ensina que quem nasce de novo pode ver o reino de Deus (Jo.3:3), ou seja, já não há mais qualquer impedimento para que o salvo se submeta ao senhorio de Deus.

 - Não é por outro motivo que a primeira bem-aventurança mencionada pelo Senhor seja, precisamente, a dos “pobres de espírito” (humildes de espírito, na ARA), que corresponde ao amor, a primeira e mais importante das qualidades do fruto do Espírito. Amor não é um simples sentimento, mas um comportamento, o gesto de se submeter à vontade de Deus, de renunciar a si mesmo e aceitar que a vontade divina se estabeleça em nossa vida. Provamos que amamos a Deus quando fazemos o que Ele nos manda (Jo.15:14). Amar a Deus é guardar as Suas palavras (Jo.14:23,24). Só é do reino dos céus aquele que for “pobre de espírito”, ou seja, que renunciar a si mesmo e fizer tão somente aquilo que Deus quer que seja feito (Mt.5:3).

 - Jesus é o exemplo máximo da submissão à vontade divina. Quando veio ao mundo, no justo instante de Sua encarnação, diz o escritor aos hebreus, que assim Se expressou: “Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo Me preparaste. Holocaustos e oblações pelos pecados não Te agradaram. Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a Tua vontade” (Hb.10:5-7).

 - Ao Se fazer carne (Jo.1:14 “in initio”), o Verbo, que era Deus (Jo.1:1), cumpre a vontade divina, submete-se à vontade soberana, para que o homem pudesse ser salvo. Jesus, então, pode nos ensinar sobre “humildade de espírito”, porque, desde o instante mesmo de Sua encarnação, nada mais fez senão a vontade de Deus. Por isso, foi bem objetivo ao dizer que não tinha vindo abolir a lei, mas cumpri-la (Mt.5:17), tendo, aliás, sido o único a fazê-la em toda a história da humanidade.

 - Numa clara demonstração de que sempre foi uma pessoa humilde de espírito, Jesus, mesmo na adolescência e juventude, época em que a rebeldia e o inconformismo são uma constante na vida dos homens, mostrou-Se ser alguém sujeito aos Seus pais (um deles, aliás, meramente social) (Lc.2:51) e às tradições de Seu país (Lc.4:16), bem como às próprias autoridades, inclusive as estrangeiras (Mt.17:24-27; 22:21).

 - Jesus mandou que aprendêssemos dEle a humildade (Mt.11:29) e que, em nossas petições, sempre nos conformássemos à vontade de Deus (Mt.6:10). Ele, próprio, ao orar, sempre quis que a vontade de Deus fosse feita e não a dEle (Mt.26:42).

 - Jesus não era um líder revolucionário, como muitos procuram ensinar, nem tampouco uma pessoa que, por ter poder e autoridade, impunha-Se sobre os semelhantes, com poderio ou qualquer outra sorte de influência ou opressão sobre aqueles que O seguiam ou dEle Se aproximavam. Muito pelo contrário, enquanto Se submetia inteiramente à vontade de Deus, sempre respeitou o livre-arbítrio das pessoas, a ponto de, certa feita, ter liberado os Seus discípulos de segui-lO ante o duro discurso que proferira e que ocasionara a desistência e o abandono de muitos (Jo.6:60-69).

 - Tão importante era esta qualidade do Senhor, que, certa feita, disse que a Sua comida era fazer a vontade do Pai (Jo.4:34) e realizar a obra que Lhe fora dada. Era este o propósito único de Jesus — consumar a obra que o Pai Lhe havia dado (Jo.17:4). Fazer a vontade do Pai era glorificar o Pai e era este o objetivo buscado pelo Senhor em Seu ministério terreno.

 - Temos sido humildes de espírito? Temos querido fazer a vontade de Deus? Temos entendido que o sustento espiritual de cada um de nós é fazer a vontade de Deus e que, sem a realização do que Deus quer que façamos, não podemos glorificá-lO na Terra? Jesus fez a vontade de Deus e, por isso, também devemos fazê-la. Pensemos nisto!

 - A segunda qualidade do caráter cristão atinente ao nosso relacionamento com Deus é a alegria ou gozo, visto que “a alegria do Senhor é a nossa força” (Ne.8:10 “in fine”). A alegria é um sentimento de satisfação por termos a companhia do Senhor, o Seu aconchego, o Seu consolo. Jesus, no sermão do monte, ensina-nos que bem-aventurados são os que choram, porque eles serão consolados.

 - Quando o homem se rende aos pés do Senhor, sente uma alegria. Vamos ao encontro de Deus porque sentimos tristeza em virtude do arrependimento pelos nossos pecados. “A tristeza segundo Deus opera arrependimento a salvação” (cfr. II Co.7:10). Quando sentimos o perdão dos nossos pecados e o Espírito Santo vem habitar em nós, recebemos a alegria do Senhor, resultado do nosso resgate por Ele (Jr.31:11-13).

 - Ao falar da segunda bem-aventurança, o Senhor nos mostra, claramente, que, ao contrário do que dizem os falsos pregoeiros da confissão positiva e da teologia da prosperidade, a vida cristã possui momentos difíceis, que nos levam a chorar. O crente, assim como Jesus, chora, não só porque enfrenta sofrimentos em virtude da sua disposição de servir a Cristo, como também porque, ao ver o aumento do pecado e da maldade no mundo, aflige-se, tem compaixão daqueles que, por não aceitarem a Cristo, caminham para a perdição eterna, assim como ocorria com o justo Ló (II Pe.2:8), até porque estamos a viver dias como os dias de Ló (Lc.17:28).

 - Entretanto, ao contrário do mundo sem Deus e sem salvação, o verdadeiro e genuíno cristão, embora tenha aflições neste mundo (Jo.16:33), sofra grandemente (e cada vez mais…), não só pelo que se lhe sobrevém, mas, também, porque, por amar o próximo, tem compaixão pelos que estão à sua volta, tem, também, a certeza do consolo do Senhor. O cristão não está só, tem em si e consigo o Consolador que foi enviado pelo Pai e pelo Filho (Jo.14:16-18), para nos fazer presente o “Deus de toda a consolação” (II Co.1:3).

 - Eis o motivo pelo qual o verdadeiro e genuíno servo de Deus é uma pessoa alegre, que sente a alegria do Senhor, apesar dos sofrimentos, das lutas e das dificuldades, a despeito das aflições pela maldade reinante e crescente no mundo. Vemos, pois, que o filho de Deus não é alguém que tenha prazer neste mundo, mas também não pode ser uma pessoa tristonha, desanimada e inconsolável. É alguém que sofre, padece, aflige-se, mas que sente a alegria íntima proveniente da consolação do Senhor.

 - Jesus é o exemplo cabal desta alegria espiritual. Não há qualquer passagem bíblica que informe que Jesus tenha dado uma risada, tenha sorrido, tendo, mesmo, sido estampadas algumas gravuras de Jesus sorrindo por parte daqueles que se levantam contra tudo que diga respeito às Escrituras. Entretanto, por duas oportunidades, ao menos, há registro de que Jesus tenha chorado (Lc.19:41; Jo.11:35). Ao mesmo tempo, vemos, em algumas oportunidades, registrado que Jesus sentiu compaixão (Mt.9:36; 14:14; 15:32; 20:34; Mc.1:41; 6:34; 8:2; Lc.7:13). Mas, também, vemos que Jesus não só sentiu (Lc.10:21) como tinha alegria (Jo.15:11; 17:13), alegria que dizia ser completa.

 - Vemos, portanto, porque a Bíblia não menciona que Jesus tivesse sorrido alguma vez, porque Ele sempre vivia alegria. Ele não só sentia, mas tinha alegria, uma alegria completa, que promete a todos aqueles que O servirem. Entretanto, esta alegria não significa momentos de satisfação, instantes passageiros de prazer, mas, bem ao contrário, é um estado permanente, resultado da comunhão que se tem com Deus. Verdade é que, em virtude do dia-a-dia, teremos aflições, sofrimentos, pois servir a Cristo é “tomar a sua cruz” (Mt.16:24; Mc.8:34; Lc.9:23), mas tudo isto não impede que sejamos alegres, pois a alegria do Senhor não é resultado daquilo que está à nossa volta, mas é algo perene, eterno, completo. Por isso, pode o crente repetir o que disse o apóstolo Paulo: “…estou cheio de consolação e transbordante de gozo em todas as nossas tribulações” (II Co.7:4b).

 OBS: É lamentável que muitos estejam se iludindo com invenções como a “risada santa”. Não é tempo de ficarmos a gargalhar sem motivo, mas, sim, de sentirmos a verdadeira alegria do Espírito Santo, alegria que se traduz numa vida de aflições, de compaixão, mas de consolo da parte do Senhor.

 - Jesus tinha alegria completa e esta alegria não se desfez, mesmo nos instantes em que chorou, estes, sim, momentos passageiros, resultado do amor ao próximo, da compaixão. Uma vez, Jesus chorou sobre Jerusalém, sabendo o significado da rejeição do Messias para o Seu povo, por quem havia vindo e a quem havia pregado o Evangelho. Outra vez, chorou ao ver a aflição e a tristeza das irmãs de Lázaro.

 - O choro é inevitável na vida do servo de Deus, pois tem ele amor a Deus e ao próximo e não consegue ficar indiferente ao sofrimento dos que o cercam. É alguém que tem compaixão, ou seja, sente aquilo que os outros estão sentindo. O choro é uma demonstração de sensibilidade espiritual e é extremamente preocupante vermos que as lágrimas estão desaparecendo na vida de muitos que cristãos se dizem ser. É uma clara evidência de que muitos estão se tornando insensíveis, estão a possuir corações de pedra, indo, portanto, na contramão da vontade de Deus (Ez.11:19; 36:26). Tomemos cuidado!

 - A terceira qualidade do fruto do Espírito, que nada mais é que o caráter cristão, atinente à relação do homem com Deus é a paz. Quando somos justificados pela fé em Cristo Jesus, quando temos o perdão dos nossos pecados, passamos ter paz com Deus (Rm.5:1) e, assim, desfrutamos também da paz de Deus (Fp.4:7; Cl.3:15). Paz é muito mais que ausência de conflitos, mas é uma tranqüilidade, um sossego, uma segurança que se tem, mesmo em meio às maiores dificuldades e adversidades, por se saber perdoado pelo Senhor e detentor da vida eterna. Como diz a poetisa sacra Fanny Jane Crosby (1820-1915), em frase que bem sintetiza este sentimento: “Que segurança, sou de Jesus” (hino 375 do Cantor Cristão).

 - Jesus nunca pecou (Hb.4:15) e, portanto, sempre teve esta paz com Deus, de tal modo que pôde dizer a Seus discípulos que a deixaria à nossa disposição (Jo.14:27), fazendo questão de afirmar que esta paz era bem diferente da paz oferecida pelo mundo. Cristo é o Príncipe da Paz (Is.9:6). Quando nasceu, os anjos que anunciaram o Seu nascimento, disseram que agora havia “paz na terra” (Lc.2:14). A paz de Cristo não é a ausência de conflitos, porquanto, como o próprio Jesus admite, a Sua presença geraria conflitos entre os homens (Mt.10:34). No entanto, é uma paz que existe mesmo em virtude dos conflitos, pois é a segurança e a tranqüilidade decorrentes do perdão dos nossos pecados, da nossa justificação. Temos a paz de Cristo porque sabemos que fomos retirados do charco de lodo e agora temos nossos pés firmados na rocha (Sl.40:2).

 - Sendo o Príncipe da Paz, Cristo trouxe e continua a trazer paz a milhões e milhões de homens. Não só estabelece a paz destes homens com Deus, como, mesmo tendo trazido conflitos entre os homens, na Sua vida, mesmo em momentos angustiantes para Si, promoveu a paz entre pessoas, como vemos no caso de Pilatos e Herodes, o tetrarca (Lc.23:12).

 - Precisamos promover a paz entre as pessoas, temos o dever de ser pacificadores. A paz de Cristo que dEle recebemos é para ser distribuída entre os que nos cercam. Muitos, baseados na assertiva do Senhor de que viria Ele a trazer espada e não paz, costumam justificar o mau comportamento que têm, já que são verdadeiras fontes de intrigas nos lugares que freqüentam, em especial, na igreja local. Jesus, porém, nunca promoveu dissensão. Apenas disse que, em virtude de Sua Palavra, haveria o surgimento de conflitos, já que muitos aceitariam a Sua Palavra e outros a rejeitariam, não havendo como se evitar a luta entre a luz e as trevas, mas, em momento algum, permitiu o Senhor que os conflitos se iniciassem pelo Seu discípulo. Muito pelo contrário, o apóstolo Paulo nos ensina que “…quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens” (Rm.12:18b).

 III – JESUS E AS QUALIDADES DO CARÁTER CRISTÃO ATINENTES AO RELACIONAMENTO COM O PRÓXIMO

 - Jesus, no sermão do monte, também nos falou a respeito das qualidades que deve ter o Seu discípulo em relação ao próximo, que o Senhor mostrou ser o segundo grande mandamento, atribuindo a cada uma destas qualidades uma bem-aventurança. Vejamos, pois, qual o ensino de Cristo a respeito, tanto pelo Seu exemplo como pela Sua prédica.

 - A primeira qualidade atinente ao próximo é a benignidade, que é o querer bem ao próximo. Devemos querer bem a todos os homens, pois, afinal de contas, como o Senhor ensinou na parábola do bom samaritano, próximo é o outro, é qualquer outra pessoa.

 - Jesus, ao nascer, já demonstra benignidade. O coro angelical que veio anunciar o Seu nascimento afirmou que a vinda de Jesus era a prova da boa vontade de Deus para com os homens (Lc.2:14). Deus quer bem ao homem e, por isso, mandou o Filho para nos salvar. Como diz o poeta sacro Robert Hawkey Moreton (1844-1917): “Paz na terra aos homens, a quem quer Ele bem” (hino 33 do Cantor Cristão).

 - Todo o bem-querer do Senhor é mostrado na Sua exclamação a respeito de Jerusalém, aliás a única vez em que o nome desta cidade é repetido por duas vezes em todas as Escrituras, como a indicar uma sentença divina. Jesus, vendo a Sua rejeição por parte dos judeus, mostrou toda a Sua benignidade para com aquele povo, ao dizer: “…Quantas vezes quis Eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!…” (Mt.23:37b; Lc.13:34b).

 - A benignidade de Jesus é também demonstrada, entre outros episódios, no tratamento que dá a Judas Iscariotes no exato instante em que está sendo traído. O Senhor o chama de amigo (Mt.26:50), a demonstrar que, apesar de tudo o que estava se passando, de Judas já ter permitido o diabo tivesse posto em seu coração o desejo de traição (Jo.13:2), mesmo, assim, o Senhor o queria bem e mantinha o acesso a uma reconciliação, oportunidade, porém, que foi desperdiçada pelo discípulo. Vemos, também, na cruz, quando o Senhor pede perdão a todos os Seus algozes, a suprema manifestação da benignidade de Cristo em relação ao homem (Lc.23:34).

 - Outra manifestação da benignidade de Cristo está no episódio da cura do leproso, logo após o sermão do monte. Aquele homem se aproximou de Jesus e Lhe indagou se era de Sua vontade que ele fosse limpo e Jesus confirmou que assim o queria e, por isso, fez a cura (Mt.8:1-3). Neste gesto, o Senhor nos mostra que a Sua benignidade é o motivo de podermos ser purificados dos nossos pecados, já que a lepra é símbolo do pecado.

 - Jesus também quis bem a Pedro. O inimigo de nossas almas queria cirandá-lo como trigo para destruí-lo, mas o Senhor não rogou por ele, para que ele, ao final da “peneirada”, não só se fortalecesse, mas confirmasse os seus irmãos (Lc.22:31,32). O desejo do Senhor, como se vê, é sempre para o nosso bem (Rm.8:28).

 - A bem-aventurança mencionada por Cristo referente à benignidade é a dos limpos de coração. Somente pode querer bem ao próximo quem for limpo de coração, quem tiver o seu coração lavado no sangue de Cristo Jesus. Jesus nunca teve qualquer má intenção, jamais procedeu com malícia ou má-fé. É o Cordeiro sem defeito, sem mancha, simbolizado pelo cordeiro pascal (Ex.12:5,6), o pão sem fermento, ou seja, o pão asmo, o pão sem malícia e sem maldade (Ex.12:15; I Co.5:6-8). Temos nos limpado do fermento? Temos nossa consciência e nossa vontade purificadas pelo Senhor? Só os limpos de coração verão a Deus!

 - Mas, além do querer bem, Jesus também sempre apresentou a bondade, que é o fazer bem. O apóstolo Pedro, quando teve de sintetizar o ministério terreno de Cristo, fê-lo numa só frase: “andou fazendo bem” (At.10:38). Jesus não só queria bem aos homens, mas também fez bem a eles.

 - A bondade de Jesus é demonstrada em todas as Suas curas, sermões, ensinos e palavras proferidas ao longo do Seu ministério, ministério este que prossegue, pois a Bíblia nos diz que Ele está a interceder em prol dos transgressores (Is.53:12). A cada instante, temos visto a manifestação da bondade do Senhor, sempre fazendo o bem aos homens, tanto que tudo quanto sucede aos que O amam e são chamados pelo Seu decreto é para o seu bem (Rm.8:28). Certíssimo está o poeta sacro Joel Carlson ao dizer: “Meu Jesus, Tu és bom, Tu és tudo pra mim” (hino 25 da Harpa Cristã).

 - A bem-aventurança referente à bondade é a bem-aventurança dos misericordiosos, pois a misericórdia nada mais é que a bondade em ação, o fazer bem. Quem é misericordioso, alcança misericórdia. Como podemos pretender ter o bem de Deus e do próximo, se não fazemos bem a ninguém?

 - Temos sido bons? Temos feito o bem? As Escrituras afirmam que quem sabe fazer o bem e não o faz, peca (Tg.4:17), como também que o verdadeiro e genuíno servo do Senhor é alguém que não se cansa de fazer o bem (Gl.6:9; II Ts.3:13). Igualmente, diz que é o ímpio que deixa de fazer o bem (Sl.36:3) e conclama o povo desviado de Judá, que era abominável ao Senhor, nos dias de Isaías, a aprender a fazer o bem (Is.1:17). Em que situação nos encontramos ante a Palavra de Deus?

 - A terceira qualidade que Jesus ensina ser necessária a Seus discípulos no sermão do monte e que diz respeito ao relacionamento com o próximo é a mansidão. Jesus, mesmo, disse que deveríamos aprender dEle que é manso de coração (Mt.11:29).

 - A identificação de Jesus com o cordeiro é a maior demonstração de Sua mansidão. Jesus não era apenas Cordeiro porque haveria de ser imolado para pagar o preço do pecado do mundo (Jo.1:29; I Jo.2:2), mas também porque os ovinos são animais que externam brandura, mansidão e submissão. Com efeito, os ovinos são animais dóceis e sem qualquer mecanismo natural de defesa, motivo pelo qual sempre foram associados à idéia de inocência.

 - Jesus sempre demonstrou mansidão, notadamente nos momentos mais angustiantes e difíceis por que passou, quando de Sua paixão e morte. Nesta oportunidade, comportou-se como uma ovelha, mantendo-se calado, sem abrir a Sua boca, precisamente como fazem as ovelhas quando vão para o matadouro (Is.53:7; Mt.27:14; At.8:32).

 - Em todas as ocasiões, vemos o Senhor agindo com brandura, de forma mansa, aproximando-se de todos aqueles que eram marginalizados e desconsiderados pela sociedade, como também tratando os grandes e até mesmo os que vinham com péssimas intenções com toda civilidade e sabedoria, jamais demonstrando irritação, nervosismo ou dureza de palavra. Mesmo quando proferiu sermões contundentes, como o constante do capítulo 23 de Mateus, jamais se dirigiu com rispidez a quem quer que seja, também não tendo sido indelicado com qualquer pessoa no episódio dos vendilhões do templo, onde atacou e foi extremamente enérgico com a profanação da casa, mas, em hipótese alguma, atingiu qualquer ser humano, pois era manso de coração.

 - Somos mansos de coração? Temos aprendido com o Senhor Jesus ou continuamos a “cabular” estas aulas de mansuetude, revelando-nos ríspidos, grosseiros, indelicados, irritadiços e nervosos? Temos permitido que o estresse nos domine a ponto de perdermos toda a mansidão? Somos ovelhas do Senhor ou mais parecemos cabritos escandalosos e reclamões? Pensemos nisto!

 IV – JESUS E AS QUALIDADES DO CARÁTER CRISTÃO RELACIONADOS COM O PRÓPRIO HOMEM

 - Mas há ainda outras três qualidades no caráter cristão, qualidades estas referentes ao relacionamento conosco mesmos, pois o segundo grande mandamento fala de amarmos o próximo como a nós mesmos, ou seja, há uma necessidade de nos amarmos a nós mesmos, não o amor egocêntrico e individualista que caracteriza os dias atuais, mas um amor que é exercido sob o domínio do Espírito Santo, um amor que reflete a nossa submissão a Cristo.

 - No sermão do monte, Jesus fala destas qualidades, a começar pela longanimidade ou paciência, a capacidade de suportar os dissabores e infelicidades, a calma para esperar o que tarda. Jesus sempre externou esta virtude em Seu ministério terreno. Era alguém que sabia esperar a hora de todas as coisas (Mt.26:45; Mc.14:41; Lc.22:14; Jo.2:4; 4:21,23; 5:25,28; 12:27; 13:1; 16:32; 17:1), alguém que tinha pleno conhecimento do significado de cada hora, porque sabia que o Senhor estava no controle de todas as situações.

 - Ter paciência ou longanimidade (o longo ânimo) é aprender a agir no “tempo de Deus” e não no tempo de nossos desejos, de nossa própria vontade. A paciência é resultado do domínio de Cristo sobre nós, é uma conseqüência direta de termos renunciado a nós mesmos e passado a fazer a vontade de Deus, um desdobramento da nossa “humildade de espírito”.

 - Vivemos dias em que tudo se dá em “tempo real”. Onde o imediatismo domina os seres humanos, que querem tudo para agora e já. Há mesmo aqueles que afirmam que “o Senhor é JÁ” (Sl.68:4), “exigindo” de Deus providências imediatas, no tempo de suas vontades e não no tempo de Deus, esquecidos que “JÁ” (todas as letras maiúsculas, perceberam?), nada mais é que uma forma poética do nome de Deus (Javé), nada tendo que ver com a palavra portuguesa “já”.

 - O resultado este imediatismo é a precipitação, que é a tomada de decisão sem reflexão, atitude incompatível com quem tem a vida sob o controle do Senhor, que não é, nestes casos, sequer consultado. A precipitação é uma atitude típica do inimigo de nossas almas, que vem sendo precipitado ao longo de sua trágica jornada, que o levará de diante do trono de Deus até o logo de fogo e enxofre (Ez.28:16; Lc.10:18; Ap.12:9; 20:10). Nós, porém, não temos nada com ele e, portanto, não podemos, em absoluto, abandonar a longanimidade e trocá-la pela precipitação, pois o homem precipitado é pior do que o tolo (Pv.29:20), o homem de ânimo precipitado exalta a loucura (Pv.14:29). O temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Pv.9:10) e, portanto, não há como se dizer servo de Deus se não se tiver a longanimidade, a paciência, que é o oposto da precipitação.

 - Como temos nos comportado? Temos nos rendido ao imediatismo do mundo atual? Temos querido as coisas para já e agora, inclusive diante de Deus? Tomemos cuidado, pois devemos possuir as nossas almas em nossa paciência (Lc.21:19). Peçamos a Deus, que é Deus de paciência (Rm.15:5), que nos conceda este Seu sentimento, visto que temos de ter a paciência de Cristo (II Ts.3:5).

 - A bem-aventurança correspondente à paciência ou longanimidade é a bem-aventurança dos perseguidos por causa da justiça. Por servirmos a Cristo, seremos perseguidos neste mundo e devemos ter longo ânimo. Aliás, são as tribulações que produzem em nós esta qualidade do fruto do Espírito (Rm.5:3). Quando o Senhor permite que sejamos alvo de perseguição, desenvolve em nós a paciência, faz-nos entrar na sintonia com o tempo de Deus, para que, já vivendo no seu tempo, desde já desfrutemos da sensação da vida eterna.

 - A segunda qualidade relacionada conosco mesmos que Jesus apresenta no sermão do monte como elemento integrante do caráter de Seus discípulos é a fé ou fidelidade, ou seja, a lealdade, o compromisso de manter o pacto firmado com o Senhor até o fim. Também é esta fé um desdobramento de nossa submissão a Cristo. Quando Lhe entregamos a nossa vida, assumimos o compromisso de Lhe servirmos até o fim. “Sê fiel até a morte”, determina o Senhor (Ap.2:10).

 - Jesus demonstrou sublime e inigualável fidelidade ao Pai. O compromisso assumido de tudo cumprir foi plenamente realizado. Jesus cumpriu a lei (Mt.5:17), como, também, todas as Escrituras (Jo.19:28), tendo, por isso, podido falar que havia consumado a obra que Lhe fora dada a fazer (Jo.17:4). Por mais de uma vez, os homens tentaram encontrar nEle alguma falha, algum defeito (Mt.22:15; Mc.12:13; Lc.20:20), mas não tiveram êxito, porque o Cordeiro de Deus Se apresentou sem mancha, sem mácula, para ser oferecido pelos pecados de todo o mundo (Mt.27:24; Hb.7:26).

 - Jesus foi fiel ao Pai até a morte e, por isso, teve Seu nome exaltado sobre todo o nome (Fp.2:8,9). E, agora, quando Se aproxima o dia em que cumprirá outra de Suas promessas, a de vir arrebatar a Sua Igreja (Jo.14:3), está a perguntar a cada um de nós:”… Quando, porém, vier o Filho do Homem, porventura, achará fé na terra?”(Lc.18:8b).

 - Se nos mantemos continuadamente debaixo do senhorio de Cristo, de fazemos a Sua vontade, seremos fiéis ao Senhor, cumpriremos o nosso compromisso diante de Deus, o serviço que Ele tem nos determinado fazer, aceitando, assim, a feliz e oportuna recomendação que Paulo fez a Timóteo: “Mas tu sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério” (II Tm.4:5). Vemos, pois, que a fidelidade a Deus exige de cada um de nós a sobriedade, ou seja, o equilíbrio, a seriedade em todas as coisas, a pregação do Evangelho, que deve começar pela nossa vida, pelo nosso testemunho e, por fim, que se faça exatamente aquilo que Deus tem nos determinado fazer, o nosso ministério.

 - A bem-aventurança correspondente à fidelidade ou fé é a bem-aventurança dos injuriados e perseguidos, daqueles que, por causa de Jesus, são alvo de mentiras e de histórias fantasiosas que denigrem a sua reputação. Não nos iludamos: jamais seremos bem vistos pelo mundo, pois, se somos o bom cheiro de Cristo, este cheiro significará condenação para muitos e vida para poucos (cfr. II Co.2:15-17).

 - Muiitos não estão dispostos a pagar o preço da incompreensão, da calúnia, da oposição ferrenha e, por isso, não são mais fiéis ao Senhor. Preferem ser simpáticos, populares, agradáveis e, para obter isto, abandonam o vitupério de Cristo, trocando-o pelos tesouros do Egito (Hb.11:26). Mas o verdadeiro e genuíno cristão sai fora do arraial e leva o vitupério de Cristo (Hb.13:13). Devemos nos alegrar e exultar quando, com mentiras, nos caluniarem e nos perseguirem por causa de Cristo Jesus. Estaremos seguindo, assim, as Suas pisadas, pois quem quer servir a Jesus não pode querer agradar os homens (Gl.1:10).

 OBS: Prestemos atenção. O vitupério de Cristo leva as pessoas a mentirem para caluniar e injuriar os verdadeiros e genuínos cristãos. Não confundamos esta bem-aventurança com os escândalos em que estão envolvidos cada vez maior número de falsos mestres, apóstolos e profetas dos nossos dias, pessoas que são desmascaradas, sobre as quais não se falam mentiras, mas cuja hipocrisia é evidenciada. Afastemo-nos destes (II Tm.3:5) e jamais consintamos com o que praticam, pois, senão, seremos participantes do mesmo pecado (Rm.1:32).

 - Por fim, temos a terceira qualidade referente ao relacionamento conosco mesmos, a temperança ou autodomínio ou, ainda, domínio próprio. Somente quem entregou sua vida a Cristo adquire domínio sobre si mesmo, pois estará sob o domínio do Espírito Santo, que, em comunhão com o seu espírito, promoverá este autocontrole. Aquele que está em pecado não faz o que quer, mas, sim, o que o pecado que nele habita deseja (Gn.4:7; Rm.7:14-20).

 - Jesus, como nunca pecou, nunca perdeu o domínio de Si mesmo. Sempre Se controlou, mesmo quando era injuriado, incompreendido, desafiado. Com imensa sobriedade, equilíbrio e controle de Si, Jesus enfrentava os Seus adversários, fossem eles demônios, fariseus, saduceus, herodianos ou, mesmo, os de sua própria casa. Jesus sempre teve o controle de Si nas diversas situações que enfrentou.

 - Quando Seus “pais” o interpelaram, naturalmente nervosos e alterados, quando O acharam no templo, Jesus, simplesmente, respondeu-lhes que deveria tratar dos negócios de Seu Pai e, sem qualquer revolta ou resistência, acompanhou-os, sendo-lhes sempre sujeito (Lc.2:49-51). Quando os discípulos se desesperaram, pois estavam na iminência da morte, clamando ao Senhor que, durante toda aquela confusão, dormia calmamente, o Senhor, de modo tranqüilo e equilibrado, mandou que tudo aquilo cessasse (Mc.4:38-41). Também não demonstrou nenhum descontrole ao verificar que a multidão que lhe ouvia estava faminta, tendo, ademais, diante da perplexidade dos discípulos que não sabiam o que fazer, tido a calma suficiente para mandar que todos se assentassem e de forma ordenada e isto por duas vezes (Mt.14:15-21; 15:32-38).

 - Soube, também, o Senhor se conter nos momentos angustiantes de Sua paixão e morte, principalmente na ceia, quando pôde verificar todo o trabalho do inimigo no coração de Judas Iscariotes e, mesmo assim, tê-lo mandado fazer o que tinha de fazer, numa demonstração de autodomínio e de temperança inigualáveis. Mas, como diz o escritor aos hebreus, Jesus “…suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb.12:2) e, mais do que isto, durante todo o Seu ministério, suportou as contradições dos pecadores contra Si mesmo, com o único objetivo de nos deixar o exemplo, para que não venhamos a enfraquecer, desfalecendo em nossos ânimos (Hb.12:3).

 - A bem-aventurança correspondente à temperança é a dos que têm fome e sede de justiça, pois eles serão fartos. Vale a pena sofrermos aqui tudo por causa de Cristo, termos de ter o autodomínio, o equilíbrio, o domínio de si mesmo. Num mundo que cada vez mais privilegia a incontinência, a ausência de limites, a total falta de parâmetros e referências, vejamos o exemplo de Cristo e nos apresentemos comedidos, equilibrados, debaixo da potente mão de Deus, controlando as paixões e os desejos, a fim de que possamos alcançar a vitória e possamos nos sentar com o Senhor no Seu trono (Ap.3:21).

 - Somos moderados? Temos autocontrole? Temos domínio de nós mesmos, ou não conseguimos impedir a natureza pecaminosa, que deveria estar crucificada com Cristo, imperar em nossas vidas? Muitos, na atualidade, procuram esconder este domínio da carne em suas vidas com manifestações pseudo-espirituais, em que há carnalidade pura, onde a incontinência, o desequilíbrio são uma constante. Afastemo-nos destes “falsos espirituais”, cuja carnalidade nos faz lembrar os “santos” da igreja de Corinto (I Co.3:1-3) ou os “atrasados” mencionados pelo escritor aos hebreus (Hb.5:12-14).

 - Quando, para “sentirem o poder de Deus”, as pessoas passam a necessitar de coisas desarrazoadas, de movimentos estranhos, de bizarrices, de invenções, de “descarregos”, de adrenalina, enfim, de emocionalismos e “impactos”, temos a verificação de que há muito já estão fora do modelo de Cristo, porque mostram não ter equilíbrio, não ter moderação, ou seja, terem sucumbido ao domínio da carne. Tomemos cuidado!

 V – AS CRÍTICAS QUE FIZERAM A JESUS E COMO PODEMOS APRENDER COM ELAS

 - Ao longo das lições deste trimestre, não só aprendemos com as qualidades dos homens e mulheres cujas vidas estudamos nas Sagradas Escrituras, como também procuramos, através das falhas que tiveram, também daí ter contra-exemplos que nos servissem para o aprimoramento do nosso caráter cristão.

 - Evidentemente, em se tratando do Senhor Jesus, o único homem que cumpriu a lei, o único homem que jamais pecou, não há qualquer contra-exemplo a ser verificado, pois Ele é perfeito, em Sua boca jamais se achou engano (I Pe.2:22).

 - No entanto, como Jesus estava no mundo mas não era do mundo (Jo.17:14,16), o mundo O aborreceu (Jo.15:18), visto que não há comunhão entre a luz e as trevas (Jo.3:19-21). Assim, embora Jesus jamais tenha pecado, Seu comportamento foi severamente criticado pelo mundo, críticas estas que tão somente servem de reforço e confirmação da vida de santidade que o Senhor teve enquanto esteve entre nós, para nos deixar como exemplo (Jo.17:19).

 - Como temos de imitar a Cristo, é fundamental que saibamos que as mesmas críticas que Jesus sofreu, também nós sofreremos (Jo.15:19). Sermos vítimas de injúrias, calúnias, oposições e toda sorte de ódio por parte do mundo é algo que deve ser visto como normal para quem serve a Deus, devendo, mesmo, ser motivo de alegria espiritual (Mt.5:11,12). Quando estivermos adequados aos padrões mundanos, tomemos cuidado, pois isto é sinal de que não estamos a servir corretamente ao Senhor (Lc.6:26).

 - Por isso, afigura-nos oportuno verificar quais as principais críticas que se fizeram a Jesus, a fim de que verifiquemos se também estão a nos criticar pelos mesmos motivos. Se não formos criticados da mesma forma que foi Jesus, então necessitaremos reavaliar nossa conduta, pois temos de ser semelhantes a Cristo, temos de ser cristãos e o verdadeiro cristão, como ensina o apóstolo Pedro, por causa da consciência para com Deus, sofre agravos, padecendo injustamente (I Pe.2:19), devendo sempre, quando se falar mal dele, ser um motivo de glorificação a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que forem nele observadas (I Pe.2:12).

 - A primeira crítica que Jesus sofreu registrada nas Escrituras veio da parte da Sua própria mãe, que o censurou por ter Ele ficado no templo, ouvindo e interrogando os doutores. À crítica de Sua mãe, o Senhor respondeu que convinha que Ele tratasse dos negócios de Seu Pai (Lc.2:48,49).

 - O mundo sempre nos criticará por estarmos a tratar dos negócios do Pai. Muitos nos criticam porque participamos de uma igreja local, porque nos envolvemos com o trabalho do Senhor em seus múltiplos aspectos (reuniões na igreja local, visitas, trabalhos de evangelização, cultos domiciliares, tempo para oração e leitura da Bíblia Sagrada), dizendo que o servo de Deus “não aproveita a vida”, “não se diverte”, “não tem lazer”, “não se distrai”. Por causa destas críticas, muitos até não mais se envolvem como antigamente, preferindo “descansar um pouco”, abandonando o “fanatismo” dos tempos de outrora.

 - No entanto, benditos são aqueles que continuam a ser criticados como Jesus o foi. Temos de dar prioridade às “coisas de cima”, porque estamos mortos para o mundo e vivemos para Deus (Cl.3:1-3). Evidentemente que o cuidado com as coisas do Senhor não significa abandono de nossos deveres familiares, que são prioritários em relação à igreja local (lembremo-nos que, na mesma passagem, Jesus deixou o templo e foi retornar ao convívio com seus pais em Nazaré, sendo-lhes sujeito), nem tampouco negligência para com nossas obrigações na sociedade, até porque o bom testemunho é a principal e mais eloqüente demonstração de que somos instrumentos para a glorificação do nome do Senhor, mas jamais podemos ceder às críticas e, assim como Demas, amar o presente século e abandonar a obra do Senhor (II Tm.4:10). Não nos esqueçamos, ainda, de que quem lança sua mão ao arado e olha para trás é apto para o reino de Deus (Lc.9:62).

 - A segunda crítica que vemos dirigida contra Jesus foi feita pelos seus “conterrâneos” de Nazaré, quando ali foi, pela vez primeira, após o início de Seu ministério público. Ao vê-lO pregar na sinagoga com autoridade e excelência, os nazarenos se escandalizaram nEle (Mt.13:57), porque sua incredulidade (Mt.13:58) não os permitia admitir que aquele carpinteiro (Mc.6:3), que o filho do carpinteiro (Mt.13:55), que o filho de José (Lc.4:22) pudesse ter a graça de Deus.

 - Podemos denominar esta segunda crítica de “inconformismo com a transformação” ou “incredulidade dos íntimos”. Os nazarenos não aceitavam que Jesus tivesse deixado de ser apenas o filho do carpinteiro, Aquele que vivera pacatamente entre eles. Como poderia um carpinteiro demonstrar sabedoria espiritual? Como poderia ter autoridade no manejo da Palavra de Deus? Ele não era assim e não poderia ter mudado. De igual modo, muitos cristãos sofrem estas críticas, têm lançado em rosto a sua vida passada e, em nome desta vida passada, muitos descrêem dele, principalmente aqueles que convivem muito de perto com ele, máxime familiares e amigos com certa intimidade.

 - A crítica dos da própria casa, dos da própria pátria é extremamente doída, mas deve ser enfrentada. Os irmãos de Jesus não criam nEle (Jo.7:5) e o Senhor não Se esqueceu de nos alertar que os maiores inimigos são os da própria casa (Mt.10:36), repetindo, aliás, o que falara o profeta Miquéias (Mq.7:6). Temos de aprender a conviver com estes problemas, não nos deixando esmorecer se, em casa, não se têm tantas maravilhas quanto lá fora (Mt.13:58), se há mesmo desejo de nos precipitar morro abaixo (Lc.4:29). Devemos manter a nossa jornada para o céu, retirando-se do meio deles se houver um indevido acalorar de ânimos, pois eles podem se escandalizar em nós, mas não podemos nos escandalizar por causa deles. Sejamos, porém, persistentes na conversão dos nossos, pois é nosso dever precípuo, lembrando-se de que Jesus, antes de partir para a glória, ganhou a Sua família, tanto que estava ela, no cenáculo, orando, buscando o batismo com o Espírito Santo (At.1:14).

 - Observemos que esta crítica resulta da mudança de atitudes que apresentamos entre os que desfrutam de nossa intimidade. Não confundamos esta crítica com a que muitos estão a fazer na atualidade mas que nada tem que ver com mudança de atitudes, mas, precisamente, o contrário, ou seja, o fato de a pessoa se dizer salva em Cristo Jesus e continuar a praticar as mesmas coisas que antes. Esta crítica, que é denúncia de hipocrisia, jamais foi feita a Cristo e, portanto, jamais poderá ser feita por nós. Quando alguém que desfruta a intimidade de alguém vem e diz que a pessoa tem “duas caras”, isto não é crítica que demonstre o padecimento de um verdadeiro cristão, mas é tão somente uma demonstração de que a pessoa criticada é, sim, um instrumento de escândalo, e que, como tal, sofrerá terrivelmente diante do Senhor (Mt.18:7).

 - Terceira crítica que se observa no ministério de Jesus é a proveniente dos demônios e espíritos malignos que, ao longo do ministério terreno de Nosso Senhor, manifestavam-se em “falsos elogios”, em adulações, tendentes tão somente a criar vaidade, a despertar, em Cristo, orgulho. Assim, por exemplo, na sinagoga de Cafarnaum, um demônio O chamou de “o Santo de Deus” que havia vindo para destruir os demônios (Lc.4:33-35), ou então, a legião que estava no endemoninhado gadareno, que chamou a Cristo de “Filho do Deus Altíssimo” (Mc.5:7).

 - A estas críticas, a estas lisonjas dos espíritos malignos, Jesus jamais deu confiança, tão somente mandando-os calar e os repreendendo. Devemos tomar muito cuidado com estas “críticas construtivas”, verdadeiras ciladas do adversário que tenta inchar os servos de Deus que, inchados, envaidecidos, orgulhosos, cairão da graça de Deus, muitos até apostatando da fé. Não podemos perder a humildade de espírito e devemos sempre estar vigilantes para não sermos enganados pelos ardis de Satanás. Lembremo-nos de Paulo que, igualmente atacado por esta crítica demoníaca, repreendeu o demônio que se encontrava naquela pobre moça em Filipos (At.16:17,18).

 - Quarta crítica que vemos feita comumente a Cristo Jesus é a atinente à inobservância do formalismo da lei. Embora tenha sido o único a cumprir a lei, Jesus, certamente, foi a pessoa mais acusada de ter quebrado a lei. O que se criticava em Cristo, porém, era o Seu desapego ao formalismo, a eliminação de todos os mandamentos de homens, do fardo pesado que se impunha aos homens, de uma religiosidade vazia e sem sentido, de um santidade meramente externa e hipócrita. Por isso, criticaram Jesus por curar no sábado (Lc.13:14), por permitir que Seus discípulos pegassem espigas no sábado para se alimentar (Mt.12:1,2), por permitir que Seus discípulos não jejuassem duas vezes por semana, como mandava a tradição (segundas e quintas-feiras) (Mc.2:18; Lc.18:12), por permitir que Seus discípulos não lavassem as mãos (Mt.15:2). Em todas estas críticas, o que vemos é o apego ao formalismo e às tradições, sem qualquer preocupação com a finalidade e o propósito da lei, que era o de viver e ter juízo, misericórdia e fé (Mt.23:23).

 - O verdadeiro discípulo de Cristo, portanto, é alguém que não está preso a formalismos, a tradições, a uma religiosidade vazia e sem sentido. Vive sendo criticado porque é simples, porque não permite que se lhe imponham fardos difíceis de carregar (Mt.23:4). É um pessoa que não se importa em ser visto pelos homens, nem procura demonstrar uma religiosidade aparente. O servo de Deus é criticado porque não quer aparecer, não é um “aparecido de Jesus”, mas alguém que faz, em suas atitudes, que Jesus apareça nele, pois, com cara descoberta, reflete como um espelho a glória do Senhor (II Co.3:18).

 - Recebemos esta crítica por parte dos religiosos, dos modernos fariseus, dos hipócritas? Ou, pelo contrário, somos enaltecidos pela nossa pompa e circunstância? Tomemos cuidado!

 - Quinta crítica feita a Cristo é a de que convivia com os excluídos da sociedade religiosa da época, que comia e bebia com pessoas marginalizadas pela sociedade, tais como os publicanos e demais classes de “pecadores” (Mt.9:11; 11:19; Mc.2:15,16; Lc.6:30;7:34; 15:1). A estas críticas, respondeu Jesus que havia vindo para os enfermos espirituais, para aqueles que estavam perdidos, pois era esta a Sua missão, não tendo deixando, ainda, de asseverar que, por crerem, publicanos e meretrizes entrariam adiante deles religiosos no reino de Deus (Mt.21:31,32).

 - O servo de Deus também é criticado porque não aceita os preconceitos culturais, porque vê em cada ser humano uma alma preciosa, mais valiosa que o mundo inteiro (Sl.49:8), que tem de ser alcançada. O verdadeiro e genuíno filho de Deus sabe que o amor supera todas as barreiras a fim de levar ao mundo a verdade do Evangelho. Sem compactuar com o pecado, vai-se ao encontro do pecador, levando até ele a mensagem da salvação na pessoa de Cristo Jesus, a proposta de arrependimento dos pecados e conversão.

 - É muito triste, porém, vermos que, na atualidade, muitos não resistem a tais críticas e se amoldam aos preconceitos e paradigmas estabelecidos por uma cultura impregnada do pecado e que, embora levante argumentos para manter as pessoas distantes dos excluídos, não tem qualquer objeção a uma tolerância e convivência com o pecado, este, sim, que deve ser combatido e extirpado. Mantenhamo-nos como Nosso Senhor, sendo portadores deste médico que está pronto a curar os enfermos espirituais.

 - Sexta crítica sofrida por Jesus veio da parte dos Seus próprios discípulos e está relacionada à “dureza do discurso”. Em meio a um sermão em que Jesus ensinava a respeito do compromisso que se deve ter na vida espiritual, no significado da comunhão com Ele, muitos O abandonaram, dizendo que aquele discurso era muito duro e que ninguém conseguiria ouvir (Jo.6:60,66). A estas críticas, Jesus respondeu que Suas palavras são “espírito e vida”, não servindo, pois, à satisfação da carne, isto é, da natureza pecaminosa do homem (Jo.6:63). A palavra é o martelo que esmiúça a penha (Jr.23:29), que causa uma verdadeira implosão no ser humano, rompendo todas as suas estruturas, fazendo surgir um novo homem, como costuma ensinar o professor Aristóteles Torres de Alencar Filho.

 - Servir a Cristo é crer nesta Palavra e, portanto, não só vivê-la, mas também pregá-la. Os ouvidos daqueles que não crêem e que não querem mudar o seu jeito de ser não suportarão esta mensagem e, certamente, abandonarão o grupo e correrão atrás de falsos doutores que lhes digam exatamente aquilo que querem ouvir, uma mensagem que esteja de acordo com a sua vida pecaminosa (II Tm.4:3).

 - Não podemos, assim como Jesus, porém, ficarmos preocupados com quantidade. Não importa se muitos abandonam a Cristo, o importante é que a Ele preguemos, ao Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gregos (I Co.1:23). Quer ouçam, quer deixem de ouvir (Ez.2:5,7; 3:11), devemos falar a verdade, que, como diz dito popular, “sempre dói nos ouvidos”. É nosso dever pregar a verdade e ai de nós se não anunciarmos o Evangelho (I Co.9:16).

 - Lamentavelmente, na atualidade, muitos são os que sucumbem a estas críticas de “dureza de discurso” e, por causa disto, criaram um “evangelho light”, um evangelho onde não mais se combate o pecado, onde se busca agradar aos homens, onde se banqueteiam com as gorduras da impiedade, onde o que vale é a simpatia e a popularidade, alisando-se uns aos outros e, por causa disto, ultrapassando até os feitos dos malignos (Jr.5:28). A resposta de Deus a esta gente é uma só: “Não castigaria eu estas coisas?” (Jr.5:29 “in initio”). Tomemos cuidado!

 - Sétima crítica que traremos aqui a análise que se fez a Cristo foi com relação a Seu desapego às coisas materiais. Ao ensinar que não se poderia servir a Deus e às riquezas, porque ou há de se servir a um ou a outro, o Senhor sofreu a zombaria dos fariseus, que eram avarentos (Lc.16:13,14). Jesus jamais Se preocupou com a acumulação de riquezas, não tendo sequer onde reclinar a Sua cabeça (Mt.8:20; Lc.9:58). Viveu como pobre (II Co.8:9), nada tendo adquirido ao longo da Sua vida terrena, desde o nascimento, quando ocupou uma manjedoura emprestada, até a morte, quando também ocupou um sepulcro por empréstimo.

 - Com isto, Jesus nos mostrou que não devemos confiar nem buscar as riquezas deste mundo, mas, sim, construir um tesouro no céu (Mt.6:19-21). Ademais, o fato de não ter enriquecido, não foi obstáculo algum para que Jesus trabalhasse como carpinteiro até o início de Seu ministério público, como também que se servisse de dinheiro para realizar a Sua obra. Entretanto, não tinha nisto o Seu coração nem trocou Deus por Mamom.

 - Temos recebido estas críticas nesta sociedade consumista dos nossos dias? Somos considerados “tontos”, “bobos” porque não buscamos consumir, consumir e consumir? Ou, infelizmente, estamos, também, a servir a Mamom, como estavam os fariseus, mesmo em sua religiosidade? A propósito, muitos são os que, na atualidade, servem a Mamom e, para tanto, falam em nome de Jesus. Livremo-nos destes que estão a devorar as casas das viúvas (Mt.23:14) e a entregar as ovelhas à rapina (Ez.34:8), pois o Senhor contra eles está (Mt.23:14; Ez.34:10).

 - Que as críticas que fizeram a Nosso Senhor e que são confirmação de Seu caráter santo e inigualável, possam também ser feitas por nós. Sabemos que não é fácil a vida cristã, que se trata de um caminho apertado, de uma porta estreita, mas porfiemos por nele andar, por nela entrar (Mt.7:13,14), pois, seguramente, o que nos está reservado é muito maior do que podemos imaginar(Rm.8:18;I Co.2:9). Estamos prontos, depois deste trimestre, a melhorar os nossos caminhos? Que todos possam dizer Amém!

 BIBLIOGRAFIA DO TRIMESTRE

 A bibliografia diz respeito aos estudos de todo o terceiro trimestre de 2007, não contendo bíblias e bíblias de estudo consultadas, bem assim textos esporádicos, notadamente fontes eletrônicas, cujas referências foram dadas no instante mesmo de suas utilizações.

 BORGER, Hans. Uma história do povo judeu: de Canaã à Espanha. São Paulo: Sêfer, 1999. v.1

 CARTER, Joseph. Os evangelhos apócrifos. Trad. Vani Inge Burg. São Paulo: Editora Ísis, 2004. 251p.

 CHAMpLIN. Russell Norman. Dicionário de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2001. 6v.

 _________________________. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Candeia, 1995. 6v.

 GRYLAK, Moshe. Reflexões sobre a Torá. Trad. Marcelo Firer. Rev. Jairo Fridlin, Carlo André L. Carrenho e Betty Rojter. 2 ed. São Paulo: Sêfer, 2002. 297p.

 JOSEFO, Flávio. História dos hebreus. Trad. Vicente Pedroso. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. 3v.

 KITCHEN, K.A. Efraim(geográfico). In: DOUGLAS, J.D. O novo dicionário da Bíblia. Trad. João Bentes, v.I, pp. 461-2.

 MELAMED, Meir Mitzliah. Torá: a lei de Moisés, enriquecida pelos comentários do rabino Menahem Mendel Diesendrck. São Paulo: Sêfer, 2001. 685p.

 NOBRE Alcorão: tradução do sentido para a língua portuguesa. Trad. Helmi Nasr, com colaboração da Liga Islâmica Mundial em Makkah Nobre. Al-Madinah Al-Munauarah: Complexo Rei Fahd(imp.), 2005.

 SILVA, Osmar José da. Reflexões filosóficas de eternidade a eternidade. São Paulo: s.e., 2001. 7v.

 MITH, B.L. Elias. In: DOUGLAS, J.D. (org.). O novo dicionário da Bíblia. Trad. João Bentes, v.I, pp. 491-3.

 WARREN, Rick. Uma vida com propósitos: você não está aqui por acaso. Trad. Josué Monteiro dos Reis. São Paulo: Vida, 2003. 294p.

 Colaboração para o Portal EscolaDominical: Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco.

6 Comentários

  1. ROGÉRIO LOPES DE SOUZA disse:

    Carmo 24 de setembro de 2007.

    A paz do Senhor, amado Dr. Caramuru, quero lhe dizer que estou aprendendo muito com seus ensinamentos, para Glória de Deus, pois são muito úteis não só nas aulas da EBD, mais também nas pregações e claro para minha vida espiritual. É um imenso prazer poder contar com seus comentários.
    Um forte abraço, fique na paz e continue sempre buscando fazer o melhor para Deus.

    Fraternalmente em Cristo,

    Pb. Rogério Lopes de Souza
    Igreja Assembléia de Deus
    Ministério Levy Gasparian-RJ

  2. Patrão disse:

    Ola!!!
    gostei mt do seu blog!!
    continue assim!!!
    vamos ser psrceiros????
    eu divulgo o seu blog e vc divulga o meu???
    se quiser o end do meu blog é esse
    http://patraoblog.wordpress.com/
    abraço
    que deus te abençoe!!!

  3. Elizeu Rodrigues dos Santos disse:

    Profº Caramuru, quando leio aquilo que o irmão, sendo em 1° lugar cristão, depois presb., Teol. e professor da EBD, fico pensando como estão suas ovelhas. Eu dou risada, pois como Paulo escreve, a letra mata, e quanto a isso não há dúvidas, cfe João escreve em sua 1º carta, 3.14,15. Vicariato indevido? Lecionei sobre Pedro em minha congregação e expliquei que o pobre pescador pensava que Jesus seria seu líder sempre. Para ele Jesus era outro profeta que talvez os libertasse dos romanos.Vejo porém que falar, escrever, é mais fácil do que fazer. Se Pedro agiu errado, como o irmão escreveu, ele não tinha a escola teológica que hoje temos, mas todo dia cometemos o vicariato indevido em nossa igreja, na separação de obreiros, na eleição dos departamentos, na eleição da convenção estadual, nacional, etc. O Espírito Santo será que está no comando dessas coisas? E, como o irmão escreveu, usamos de métodos não aconselháveis, como votar, em eleições oinde os competidores (pastores, irmãos, etc) só faltam um bater no outro. Ensine esse seu vicariato indevido a convenção nacional da IEAD. Sou diácono, tenho 35 anos, trabalho na EBD como professor e sou redator do informativo quinzenal, onde escrevo para o crescimento espiritual dos irmãos. Entrem em contato comigo: diacers@yahoo.com.br

  4. gildasio disse:

    Caro irmão Elizeu, no caso de verdadeiramente as ovelhas de qualquer grupo estarem sendo “mal elimentadas” ou “mortas pelas palavras” de um obreiro, alguém que é cristão, diácono, e ensinador de uma classe de EBD, deveria estar orando e não dando risada. acho que um estudo superficial da palavra de Deus já nos é suficiente para entendermos quem é que rí de possíveis igrejas fracassadas. estou longe de concordar com tudo o que o Irmão Caramuru escreve e acho este espaço um espaço válido para discussões a esse respeito. mas Cristo foi exemplo de amor, de misericórdia, de zelo pela Igreja, dando por ela sua própria vida. será que Jesus, ao perceber e revelar (este sim com certeza do que estava falando) a ineficácea dos ensinamentos dos mestres de Israel, sorriu do povo para o qual Ele foi enviado como mensageiro e dom expresso da Vida Eterna?
    Se não me falha a memória, a lição em foco trata justamente sobre seguirmos os exemplos de Cristo, orientados pelo Espírito Santo. que controvérsia.
    que Deus abençoe a tantos quanto ele tem chamado para alimentar e para serem alimentados nos nossos templos. A paz do Senhor.
    contato: gildasiohist@yahoo.com.br.

  5. gildasio disse:

    Irmão Caramuru, que Deus continue te abençoando no trato com a sua Palavra.

  6. JOÃO REIS GONÇALVES SANTOS disse:

    MARAVILHA DE DEUS

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