
A PERSONALIDADE DE DEUS
Deus é uma pessoa. Para MacGrath (2005, p. 319) “A palavra ‘pessoa’, em sua acepção comum, passou a significar nada mais do que um ’ser humano individual’”. Isso acabou gerando alguns problemas em entender Deus como uma “pessoa”.
Essa visão reducionista do significado de “pessoa” não esteve presente nas idéias de Tertuliano, que entendia “pessoa” como um ser que pode falar e atuar. A idéia de alguém que interpreta um papel no drama social, alguém que se relaciona com outras pessoas, esteve presente no pensamento dos primeiros escritores cristãos (idem).
A idéia de “um Deus pessoal” pode ser concebida com a de um Deus com o qual podemos nos relacionar, da mesma forma como nos relacionamos com outro ser humano, sem reduzir Deus ao nível de “ser humano”.
Segundo Strong (2002, p. 376) “Pessoalidade significa o poder de autoconsciência e autodeterminação.”
- Intelecto (Gn 18.19; Êx 3.7; Pv 3.19; Atos 15.18)
A Bíblia nos apresenta um Deus que fala (Gn 1.3), que vê (Gn 11.5), que ouve (Êx 3.7; Sl 94.9), diferente dos deuses falsos:
Comunicação fala de relacionamento. O Deus da Bíblia é um Deus que se relaciona com o homem na categoria Eu-Tu, e Eu-Isso. É uma relação pessoal.
Quem bem especifica esses tipos de relação é o escritor e pensador judeu Martin Buber, em sua obra Eu e Tu. Como bem comentado por McGrath (ibdem, p. 321), falando sobre “personalismo dialógico”, estas relações podem ser especificadas conforme segue:
- As relações Eu-Isso. Buber se utiliza desta categoria para se referir às relações ente sujeitos e objetos, homens e coisas, onde os sujeitos são ativos e as coisas passivas.
- As relações Eu-Tu. Esta relação existe entre dois sujeitos ativos, entre duas pessoas. É algo mútuo, recíproco e consciente.
As implicações teológicas do pensamento filosófico de Buber nos permite conceber que “A revelação das idéias sobre Deus deve ser complementada pela própria revelação pessoal de Deus, sendo um conceito que envolve tanto presença quanto conteúdo” (ibdem, p. 323). Dessa forma, o “conhecimento de Deus não é uma simples coleção de dados sobre Deus, mas um relacionamento pessoal” (ibdem). Um relacionamento pessoal que envolve comunicação.
Em sua grandeza, glória, majestade e perfeição, Deus nos dá uma grande lição sobre comunicação. No processo de comunicação entre Deus e o homem, estão envolvidos os seguintes elementos:
- Deus. A fonte de transmissão da mensagem:
No passado “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes…”, e no presente “nestes últimos dias, nos falou”.
- Transmisssor. O meio utilizado para a codificação da mensagem, verbais, escritos ou não verbais (como símbolos, sinais ou gestos). A codificação é realizada para colocar a informação numa forma que possa ser recebida e compreendida pelo destinatário.
“e de muitas maneiras…”
A comunicação de Deus com o homem acontece através:
-Da palavra verbalizada direta “disse o Senhor” (Gn 3.8-24; 6.13; 7.1; 12.1; Êx 3.1-22ss; 1 Sm 16.7)
-Da palavra verbalizada indireta “assim diz o Senhor” (Jz 6.8; 1 Sm 10.18; 1 Rs 11.31; Is 43.1 ss; Mc 16.15)
-Da palavra escrita (Êx 17.14; 24.12; 34.1; Js 8.32; Is 30.8; Jr 30.2; 36.6; Ez 37.16; Hc 2.2; 2 Tm 3.16)
-Dos sinais (Êx 19.10-19; Êx 40.34-38; Jz 6.36-40; 1 Rs 18.36-39 ss)
-Dos sonhos (Gn 20.3; 28.12; 31.11; 37.5-9; Jz 7.13; 1 Rs 3.5; Jr 23.28; Mt 2.12, 13, 19, 22)
-Visões (Gn 15.1; 1 Sm 3.15; 2 Sm 7.17; Is 1.1; Ez 11.24; Dn 2.29; 7.2; 8.1; Am 1.1; Ob 1.1; Mq 1.1; Na 1.1; Hc 2.2; Lc 1.22; At 9.10; At 10.17; At 16.9; At 18.9; Ap 9.17)
- Canal. É o meio escolhido através do qual Deus faz com que sua mensagem flua para os seus destinatários. A escrita e a fala estão também aqui inclusos. Como outros exemplos podemos citar:
- Os homens “pelos profetas” (Vide textos acima da palavra verbalizada indireta e escrita)
- Os anjos (Gn 19.1; 1 Rs 19.5; Zc 1.9 ss)
- As Teofanias (Nm 22.22; Jz 6.11 ss;)
- O Cristo, o Filho;
“nestes últimos dias, nos falou pelo Filho” (Hb 1.2a)
“E o verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” Jo 1.14)
Foi através da encarnação do Verbo que a comunicação de Deus com os homens se deu em sua forma mais plena. A palavra se concretizou, se humanizou, se aculturou. Tornou-se possível , além da possibilidade que já se tinha de sentir a emoção da comunicação da palavra divina, o contemplar da emoção da comunicação divina através do olhar, do chorar, do sorrir, do semblante, do toque, dos gestos, do afago do Verbo.
- O Espírito Santo: “disse o Espírito” (( At 8.29; 10.19; At 13.2), “quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2.7, 11, 17, 29; 3.6, 1, 22)
- Destino. Trata-se aqui da pessoa ou grupo que deve receber a mensagem e compartilhar o seu significado. O Senhor continua se comunicando com o homem muitas vezes e de muitas maneiras, nestes dias de incredulidade e ceticismo. Onde se encontra alguém desejoso de ouvir e obedecer a sua voz?
“Invoca-me, e te responderei; anunciar-te-ei coisas grandes e ocultas, que não sabes.” (Jr 33.3)
REFERÊNCIAS
BUBER, Martin. Eu e Tu. 8. ed. São Paulo: Centauro, 2004.
CHIAVENATO, Idalberto. Administração nos novos tempos. 2. ed. Rio de Janeiro Campus, 1999.
FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e aologética para o contesto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.
McGRATH, Alister. Teologia: sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd, 2005.
STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática. São Paulo: Teológica, 2002.
THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em Teologia Sistemática. São Paulo: IBR, 1987.



